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sábado, 29 de outubro de 2011

Livro da Vez: Casa Grande & Senzala - Gilberto Freyre

Sensacional. Uma sensacional aula de história. Uma verdadeira aula de Brasil. É o tipo de livro que se lê com prazer. O livro que "acrescenta" alguma coisa. E nesse caso é alguma coisa que está dentro de nós mesmos, no inconsciente, na cultura e na história de cada um de nós, brasileiros.

De se ressaltar no livro que ele está falando das pessoas, dos cidadãos, dos índios, dos portugueses e dos escravos negros. Não é um livro sobre os personagens históricos, suas leis, guerras e políticas. Esses são citados apenas de passagem, se tanto. O personagem principal do livro - como também o é da história do Brasil e do mundo - é o cidadão comum. Uma narrativa que se desenvolve em torno dos senhores de engenho, das suas esposas, dos índios, dos negros, dos jesuítas e dos filhos de todos esses. Enfim, em torno do povo brasileiro. Do cotidiano dos tempos coloniais. Às vezes chegando até ao tempo em que foi escrito, no início dos anos 1930.

Trata-se de uma obra extremamente bem documentada. Pesquisa profunda e cuidadosa, citando inúmeras referências. Na edição que eu li, constavam mais de sessenta páginas de bibliografia. Inclusive muitos documentos históricos e jornais do período colonial e do império. Um trabalho muito bem feito. Muito bem feito e muito bem escrito. Um estilo agradável, contundente e que vai além do livro de história para ser também uma obra de literatura, como arte.

Claro que o livro não é cientificamente atualizado ou correto o tempo todo. Há, a meu ver, algum exagero quando ele fala em algumas características genéticas que os povos (e em algum caso, mesmo famílias) possuiriam e que determinariam certas características dessas famílias e povos. Ele também fala em "eugenia" e superioridade de uma "raça" sobre a outra de uma forma que não se fala mais hoje em dia. Quando fala da influência do povo judeu sobre o povo português, por exemplo, chega a beirar o anti-semitismo. Justamente pouco antes da segunda guerra. Mas há que se inserir o autor no contexto do seu tempo, e no princípio dos anos 30, creio eu, a ciência apontava realmente para essas diferenças mais profundas, as quais hoje a ciência nos mostra que não são tão profundas assim, chegando a ser questionado o próprio conceito de "raças" humanas.

Mas o livro transcende essas questões, e faz com que todos os brasileiros se identifiquem com suas origens. Faz com que percebamos de onde viemos e que temos traços do índio, do português e do negro. Uma miscigenação bem sucedida que, pra mim, é um dos maiores motivos de orgulho de ser brasileiro. O fato de que conseguimos conviver em paz e, relativamente unidos como um povo só, independente da diversidade das nossas origens étnicas, culturais ou religiosas tão diversas, enquanto a maioria do resto do mundo ainda se comporta de forma um pouco (ou muito, dependendo do lugar) diferente.

O livro transcende as críticas. Transcende a sociologia e a antropologia. É literatura. E é sobre nós. Sobre o nosso passado. Sobre a nossa infância às vezes. Embora não fale no Rio Grande do Sul, que no período colonial talvez tivesse mais semelhanças com a América espanhola que com o Brasil, é possível, e pra mim inevitável, se identificar com o que ele diz. Mesmo o gaúcho que nunca tenha ido a Bahia, se identifica com o tabuleiro da baiana. Nem que seja através da música do Caetano ou de um gibi do Zé Carioca.

Em resumo, um livro que, ao descrever rituais de danças indígenas, consegue fazer uma ponte para que eu - que nunca sequer vi um índio de perto - consiga identificar nesses rituais lembranças da minha própria infância é um livro especial pra mim. Trata-se de um livro que todo brasileiro deveria ler.


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sábado, 9 de outubro de 2010

Livro da Vez: O Diário de Anne Frank

As citações do texto que coloco aqui estão em inglês, tiradas da edição em inglês do diário que eu li. Sinto muito ao leitor que não entende o inglês, mas eu me senti incapaz de traduzir o sentimento expresso nas citações. Ainda sobre as citações, elas podem estragar um pouco alguma surpresa de quem for ler, mas acho que não muito. São apenas amostras do que é o diário em si. Enfim, se não quer saber detalhes de antemão, não leia o texto a seguir e leia o livro que é bem melhor e eu recomendo muito.

Ler o diário foi, pra mim, um grande prazer. E uma surpresa, pela capacidade que uma "guriazinha" de treze a quinze anos pode ter de escrever. É o tipo de texto em que se nota que o autor, a autora no caso, colocou ali o sentimento. Colocou ali sua honestidade. Em se tratando de uma auto-biografia, nos convidou a conhecer sua vida. Seus sentimentos, sua mais individual e pura intimidade. Talvez parte disso seja porque ela, pelo menos no início, não esperava que alguém além dela mesma fosse ler ou se importar com o que ela estava escrevendo. "it seems to me that later on neither I nor anyone else will be interested in the musings of a thirteen-year-old schoolgirl." O fato de o texto não ter inicialmente o objetivo de ser publicado o torna tão honesto quanto possível. E a honestidade, a sinceridade, a realidade de uma vida sem todas as censuras que a sociedade nos impõe é algo muito bonito e fascinante.

Escrevi um parágrafo sobre o diário de Anne Frank e sequer mencionei a guerra. Isso porque, na minha opinião não se trata de um livro sobre a guerra. Se trata muito mais da vida de uma adolescente. Seus sonhos, seus desejos, suas frustrações, suas dúvidas. Dúvidas que ela coloca de uma forma única. Verdadeira. Impressionante. Visceral, pelo menos pra mim. Com a peculiaridade de essa adolescência ter se dado em meio à segunda guerra mundial. A peculiaridade de ser a menina uma integrante do povo que mais sofreu naquela guerra. E a fatalidade de ela ter sido uma das vítimas daquele massacre. Mas não é também um livro sobre judeus. O texto é de uma humanidade tal que transcende qualquer dos rótulos étnico-religiosos que nós criamos para nos sentirmos melhores que aqueles que são ou acreditam em coisas só um pouco diferentes que nós. Não, o texto não é sobre o judaísmo ou sobre o anti-semitismo. A guerra é o pano de fundo. O cenário. O livro é simplesmente humano. É sobre uma criança - "We had a short circuit last night, and besides that, the guns were booming away until dawn. I still haven't got over my fear of planes and shooting, and I crawl into Father's bed nearly every night for confort. I know it sounds childish, but wait till it happens to you!" - e seu amadurecimento, apesar dos pesares. Apesar das dificuldades. Apesar de tudo, ela tinha que crescer, florescer e expressar esse amadurecimento de uma forma encantadora para todos que queiram admirá-lo.


É um livro sobre amadurecimento: "Sometimes, when I lie in bed I feel a terrible urge to touch my breasts and listen to the quiet, steady beating of my heart. Unconsciously, I had these feelings even before I came here. Once, when I was spending the night at Jacque's, I could no longer restrain my curiosity about her body [...] I asked her whether, as proof of our friendship, we could touch each other's breasts. Jacque refused. I also had a terrible desire to kiss her, which I did.". E sobre a inocência de uma adolescente nos anos 30: "A week ago, even a day ago, if you'd asked me, 'Which of your friends do you think you'd be most likely to marry?' I'd have answered 'Sally', since he makes me feel good, peaceful and safe!' But now I'd cry, 'Petel, because I love him with all my heart and all my soul. I surrender myself completely!' Except for that one thing: he can touch my face, but that's as far as it goes."

A menina é muito madura para a idade ao discutir temas complexos como feminismo, política e claro, o grande assunto de então, a guerra. Guerra que para ela e todos os envolvidos era constante causa de medo, desespero. Ainda que, no caso dela, sem perder a esperança. "I've reached the point where I hardly care whether I live or die. The world will keep on turning without me, and I can't do anything to change events anyway. I'll just let matters take their course and concentrate on studying and hope that everything will be alright at the end."


E, como todo o diário, é também uma invasão aos sentimentos mais íntimos da autora. Intimidade nos sentimentos (ou falta de) sobre a mãe - "I can't talk to her, I can't look lovingly into those cold eyes, I can't. Not ever! -If she had even one quality an understanding mother is supposed to have, gentleness or friendliness or patience or something, I'd keep trying to get close to her. But as for loving this insensitive person, this mocking creature-it's becoming more and more impossible every day!"

Passagem muito curiosa e, de certa forma, bonita: "When you are standing up, all you see from the front is hair. Between your legs there are two soft, cushiony things, also covered with hair, which press together when you are standing, so you can't see what's inside. They separate when you sit down […detalhada descrição anatômica...] The hole's so small I can barely imagine how a man could get in there, much less how a baby could come out. It's hard enough trying to get your index finger inside. That's all that is, and yet it plays such an important role!"

Encerro com uma pequena frase do fim do diário: "Maybe, Margot says, I can even go back to school in September or October.". Especialmente comovente porque sabemos que ela morreria poucos meses depois, em um campo de concentração. Ela que queria tão pura e simplesmente voltar pra escola. Se algum dos leitores do blog tiver alguma explicação racional para a guerra, favor compartilhar nos comentários.

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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Brasilidade

Estudo extremamente interessante sobre nós brasileiros. Vale a pena ler. Ali no menu, abaixo dos slides dá pra colocar os slides em "full screen".

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Berlim Histórica

Bueno, vamos falar de Berlim então. Eu fiz um city tour muito legal sobre o terceiro reich, onde se pode aprender muitas coisas interessantes. Em uma tarde é possível entender como o Hitler conseguiu o poder absoluto na Alemanha sem quebrar as leis da época, por exemplo. Acontece que houve um incêndio criminoso no parlamento (Reichstag). Não se sabe com certeza até hoje quem seriam os responsáveis. Há quem diga que foram os próprios nazistas, já que aquele prédio simbolizava a democracia, da qual eles não eram muito fãs. Mas o Hitler, chanceler na época, colocou a culpa nos Comunistas, e solicitou e aprovou em medida emergencial o poder de fazer o que quisesse por um tempo limitado, 30 dias ou algo do gênero. Nesses 30 dias ele simplesmente mandou prender todos os parlamentares da oposição e depois disso, votou "democraticamente" no parlamento para ser nomeado führer, com poder absoluto, e aí deu no que deu. Há um memorial perto do Reichstag para lembrar dos políticos que foram presos na época e que foram mortos pouco antes do fim da guerra, quando a derrota era iminente.

Aliás memoriais não faltam pela cidade. O memorial das vítimas do holocausto, por exemplo. Impossível ficar indiferente ao holocausto. Provavelmente a maior demonstração de brutalidade da história da humanidade. Houveram outras tentativas de genocídio na história e ainda hoje, mas nunca de forma tão fria e sistemática. Uma verdadeira indústria da morte. O memorial do holocausto não tem nenhuma explicação. Diz que cada pessoa deve interpretá-lo como preferir. Caminhar por ali e sentir a claustrofobia que o local inspira. Foi construído bem no centro da cidade. Próximo ao portão de Brandenburgo e do Reichstag, procurando fazer com que a cidade e a Alemanha nunca esqueçam o horror que aconteceu e que tal barbaridade nunca venha a se repetir. O Holocausto e a segunda guerra são tão fascinantes que não importa quantos livros e filmes se façam a respeito, o assunto parece nunca se esgotar. Impressionante. E triste.

Em vários lugares se encontram pedras ligeiramente elevadas na calçada com dizeres do tipo "Nesta casa morou fulana de tal, deportada para Auschvitz no dia tal, onde foi morta na data x." A idéia seria que de tanto em tanto os cidadãos, em meio a suas vidas felizes e atarefadas na Berlim moderna, "tropecem" nessas pedras e se lembrem do que aconteceu. Claro que isso é simbólico, as pedras não são suficientemente elevadas para que alguém de fato tropece e se esborrache no chão, mas estão ali. Eu vi e li.

Outro memorial interessante encontra-se em uma praça onde se costumavam queimar livros que o regime nazista considerava inconvenientes. O memorial é uma série de estantes de livros vazias, onde deveriam estar as obras queimadas. Importantes autores alemães estavam entre os autores de obras "inconvenientes", como Albert Einstein e Sigmund Freud, por exemplo.

Tem, ainda, um memorial do soldado soviético desconhecido. Me conta o guia do tour que alguns alemães chamam o memorial de "memorial do estuprador desconhecido", pois afirmam que os Russos depois de conseguirem finalmente conquistar Berlim praticaram esse ato deplorável com muitas mulheres por lá. Afirma ainda o mesmo guia que as estatísticas de abortos feitos na época confirmam essa ideia (não, não está errado, com a reforma ortográfica "ideia" não tem mais acento). O interessante é que o memorial encontra-se no lado ocidental da cidade. No setor britânico. Motivo: Os russos foram os primeiros aliados a chegar lá. E quiseram deixar isso claro construindo antes que os demais aliados chegassem o tal memorial no território que seria deles. E porque o memorial não foi destruído pelos britânicos? Segundo o guia, ele mesmo britânico, "o memorial não foi destruído porque nem os britânicos seriam tão doentios a ponto de violar sepulturas das centenas ou milhares de soldados que estão sepultados ali. Aprendi que morreram muito mais soldados soviéticos ali do que seria necessário. Aprendi que Stalin decidiu que a União Soviética deveria ser a primeira a chegar a Berlim. Mais, deveria conquistar a cidade no dia primeiro de maio, data bacana dos trabalhadores e tal. E decidiu que queria isso independente de quantas vidas soviéticas isso custasse. A célebre foto que ilustra esse post, do soldado colocando a bandeira da URSS no topo do Reichstag no dia primeiro de maio, como queria Stalin, teria custado muitas vidas de soldados que entravam pela porta da frente, no hall só para serem alvejados pelos soldados alemães em pontos altos do interior do prédio. Me disse o guia que esse soldado que está colocando a bandeira teve que passar literalmente por cima de uma montanha de soldados russos mortos no hall de entrada para chegar lá em cima e finalmente tirar essa foto que enaltece a URSS. O mais correto, estrategicamente, seria manter o Reichstag cercado, como já estava, por algumas semanas ou meses até que os alemães se rendessem por falta de suprimentos, por exemplo. Mas isso só aconteceria bem depois de primeiro de maio de 1945 e da chegada das tropas aliadas ocidentais, algo inadmissível para nosso amigo Stalin.

Dados todos esses memoriais, eu percebo que realmente há um esforço no sentido de não esquecer mesmo o que aconteceu por parte da cidade. Esse esforço é louvável. Não recupera nem uma das vidas perdidas sequer, mas ainda assim louvável. Muito bonito.

Depois da guerra, Berlim continuou sendo um lugar único em termos históricos. Com a debandada de pessoas do mundo socialista para o capitalista através de Berlim logo depois da guerra e da instalação da "cortina de ferro", os soviéticos resolveram construir o famoso muro. Passa-se então a existência de dois modos de ver o mundo em uma mesma cidade dividida por um muro. Visitei o museu da DDR (Alemanha Oriental) que mostra o cotidiano do pessoal do lado comunista. Inclusive com um carro Trabant, o único carro que se podia comprar na DDR, e ainda assim depois de esperar anos na fila. Dizem que tinha gente que tinha filho recém nascido e já reservava um carro pra o guri receber quando crescesse.

Há ainda casos célebres de tentativas de fuga do lado oriental para o ocidental, como o de um casal de namorados. Eles namoravam já antes da construção do muro. Mas com o muro, ficou um de cada lado. A moça no lado oriental e o rapaz na parte oeste. Nosso herói teve uma ideia (de novo sem acento) brilhante. Começou a namorar uma outra guria, essa habitante da Berlim ocidental como ele, muito parecida com sua antiga namorada. Depois de um tempo de namoro, convenceu a nova namorada a passar um agradável fim de semana fazendo turismo no lado oriental. Chegando lá, roubou os documentos da moça e foi encontrar a antiga namorada, com quem fugiu para o lado ocidental usando os documentos. Parece que a história é verídica, mas o cara e a sua amada acabaram presos. Parece que a vítima do golpe, por azar dos golpistas, era parente de algum figurão do governo que deu um jeito de cuidar muito bem do caso.

Bueno, esse post longo todo pra dizer que Berlim é um lugar com uma história muito rica. Recomendo muito pra quem gosta de história uma visita e este city tour que eu fiz. Muito bacana mesmo. No próximo post eu falo mais sobre outros aspectos da cidade. Acho que deu pra perceber que eu curti bastante Berlim. Até a próxima!

Berlim

Passei o ano novo na capital da Alemanha. Uma grata surpresa. Toda a grande cidade tem uma região ou bairro mais underground, alternativo. Mas no caso de Berlim, o alternativo parece ser a regra. Uma cidade muito viva. Muito cultural. Muita arte de rua. Música punk, bares góticos e alternativos. Além disso, em Berlim tem muita história. Nazismo, segunda guerra, comunismo, o muro, o socialismo... Cada um desses itens daria um ou mais livros de história. Muito interessante estar em um lugar onde aconteceu tanta coisa. Nos próximos dois posts vou falar um pouco sobre Berlim. Primeiro sobre a parte histórica, e depois sobre algumas atrações da cidade em si. Aguarde e confie. Ah, a foto é do portão de Bradenburgo. Cartão postal da cidade.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Queda da Bastilha

Ontem comemorou-se 220 anos da queda da Bastilha (14 de julho de 1789), que foi o auge da revolução francesa. Eu sou uma pessoa extremamente pacifista, mas a revolução francesa, pra mim, é talvez a mais justificável das guerras (em empate com a reação dos aliados a Alemanha nazista). Os ideais da revolução: libertar o povo do absolutismo, do feudalismo e da idade das trevas imposta pela religião e pelos reis absolutistas foi algo extremamente nobre. Uma causa pela qual foi muito importante lutar (literalmente). Esta revolução não representou somente a liberdade aos franceses, mas ao mundo todo. Liberdade política e de pensamento. Ocasionou o iluminismo. Uma retomada do pensamento científico e cultural e da democracia, abandonados desde os tempos em que o império Romano havia subjugado a civilização grega e estabelecido o militarismo e o misticismo como valores maiores uns 2000 anos antes. Por isso eu saúdo nesta data esta grande revolução. Respeito a França e sua história. Parabéns aos franceses e a todos que acreditam em democracia, ciência, cultura e liberdade nesta data, por nos ajudarem a viver em um mundo mais iluminado que o de 220 anos atrás.

Liberté, égalité, fraternité!

Nota: O quadro é de Jean-Pierre Houël e retrata a queda da Bastilha e (ao centro) a prisão de seu então governador Jourdan de René de Bernard, marquês de Launay.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Retrospectiva - Parte 2: 2007

O ano com mais posts no total.

Momentos

Festas 2006/2007: Alpes Franceses
Mar 2007: Quebrado
Ago 2007: Mariana

Diferenças Culturais

Fev 2007: Diferenças da Europa para o Brasil
Fev 2007: Il Telegiornale degli Orrori
Mar 2007: Formatura Trentina
Mar 2007: Iogurte e Piás
Mar 2007: SUS Italiano
Mai 2007: Greve, Direita, Esquerda e Politicagens em Geral
Ago 2007: Crianças Formais
Nov 2007: Máfia

Esportes

Mai 2007: Ha Vinto il Milan

Arte, Teatro, Música, Cinema...

Fev 2007: Todos os "Livros da Vez"
Set 2007: Aida
Nov 2007: 75 "Baita" Filmes
Dez 2007: Quem Ensinou Italiano ao João Gilberto?

Lugares

Festas 2006/2007: Mainz e Frankfurt (Alemanha)
Abr 2007: Paris Partes 1 e 2 e Versailles
Mai 2007: Gardaland
Ago 2007: Milão, Londres, Paris (de novo!), Barcelona e Rimini.
Set 2007: Atenas
Out 2007: Pisa

Curiosidades

Dez 2007: Aquiles e a Tartaruga

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Retrospectiva - Parte 1: 2005 e 2006

Esse blog existe desde 2005, quando se chamava "Un Brasiliano in Svizzera". Esses dias eu estava brincando ali no item "Arquivo" da side bar e relembrei alguns posts antigos. Divido com vocês algumas dessas lembranças. Com vocês a primeira parte do que de menos pior foi escrito aqui nestes pouco mais de três anos de blog:

Momentos

Festas 2005/2006: Tentando esquiar em Morgins
Jan 2006: Minha primeira grande nevasca, e a mais divertida
Dez 2006: L'imponderabile Inter campeão do mundo!

Diferenças Culturais

Nov 2005: Faixa de segurança
Fev 2006: Português é muito difícil (post mais comentado)
Fev 2006: Susto
Abr 2006: Cultura indiana
Abr 2006: Comunismo

Esportes

Fev 2006: O bom e o ruim dos jogos olímpicos de inverno
Mar 2006: Lugano vs Ambri-Piotta (hóquei no gelo)
Jul 2006: Itália é tetra
Set 2006: Bento Freitas

Arte, Teatro, Música, Cinema...

Dez 2006: Joseph Klimmer (possivelmente o vídeo mais engraçado que já vi)

Lugares

Dez 2005: Zurique, partes 1 e 2
Out 2006: Lisboa
Nov 2006: Trento ("5 estrelas" para 9 pessoas!!)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Pergine Medieval

Sábado passado aconteceu uma batalha medieval em Pergine Valsugana, cidadezinha onde eu moro. Foi a representação de uma batalha acontecida em 1356 entre o povo de Padova, que então controlava o castelo e o povo do Tirol, atual região da Áustria. Foi muito interessante o evento. A caracterização dos atores e o cenário do castelo estavam sensacionais. Os atores eram claramente amadores e muita coisa foi de improviso na encenação. Provavelmente o elenco era de cidadãos de Pergine e região aficionados pelo período medieval querendo dividir com a população um pouco dessa cultura. Muito interessante o evento. Eu assisti a batalha com meus novos companheiros de quarto e amigos Leonardo e Paula. O leitor pode encontrar mais fotos do evento no meu orkut, facebook ou no site do Leonardo K. Alencar, que aliás foi quem tirou todas as fotos, muito boas na minha opinião.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Ameaça de conflito Equador-Colômbia

É só o que me faltava. Leio nos jornais que a Colômbia invadiu o Equador para atacar alguns guerrilheiros das FARC. Uma das coisas que mais me orgulha em ser sul-americano é que não temos guerras no continente há muitos anos. Se não me falha a memória, o último conflito foi a guerra do Paraguai, que acabou em 1870. Espero que a paz seja mantida, e que Equador, Colômbia e as FARC possam resolver seus problemas da melhor forma e o mais rápido possível.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Livro da Vez: A Familia Frank que Sobreviveu - Gordon Frank Sander

Não adianta. A segunda guerra mundial é um acontecimento que, não importa o quanto eu leia ou quantos filmes a respeito eu assista, eu não consigo entender. Como pode ter sido possível um governo de um país civilizado e desenvolvido deliberadamente exterminar milhões de pessoas? Milhões de pessoas inocentes, cujo único crime era pertencer a uma religião específica.

Este livro fala sobre a experiência de uma família de judeus alemães durante a segunda guerra. Essa família fugiu para a Holanda quando Hitler assumiu o governo alemão. A decisão de fugir foi tomada na hora certa, mas para o lugar errado, já que alguns anos depois a Holanda seria anexada ao Reich. O título do livro faz analogia à família de Anne Frank. Que, de maneira semelhante à família retratada no livro, fugiu para a Holanda e, quando a Alemanha conquistou a Holanda se escondeu na clandestinidade. A família do livro sobreviveu, ao contrário da de Anne Frank (da qual só sobreviveu o pai). Anne Frank é conhecida por ter deixado um diário contando suas experiências naquele período conturbado. Tal diário é leitura obrigatória em escolas aqui na Europa. Talvez isso contribua para que algo do gênero não volte a acontecer. Talvez.

Aquela guerra teve um impacto sobre a Europa que ainda hoje se pode sentir. Certa vez, no ônibus, eu não sei nem por que, mas um senhor italiano começou a gritar e xingar um outro cara de fascista. E a dizer que os estrangeiros trabalham e ajudam a Itália a ser o que é. Eu imagino que o tal cara tenha tomado alguma atitude preconceituosa contra algum estrangeiro. O fato é que o tal senhor estava indignado e chamou o cara de fascista e desatou a falar de todos os males que o fascismo causou aos italianos. Outro dia, tomando cerveja com amigos na Piazza Duomo, um senhor de certa idade chegou na nossa mesa perguntando se sabíamos que o fascismo ainda existe na Itália. Respondi que achava que não, que era coisa do passado. Ele, meio indignado, procurou justificar a nossa "ignorância" dizendo algo como: "hmpf, não são italianos, não sabem de nada..." Alguns dias depois, vendo no Le Iene uma reportagem sobre quem seria a "madrinha dos caminhoneiros" da Itália, um dos caminhoneiros entrevistados não tinha nenhum pôster de mulher nua ou seminua na boléia. Mas tinha um pôster do Mussolini. Aquilo me fez pensar que talvez o velhinho paranóico que veio falar conosco na Piazza Duomo tenha alguma razão. Espero que não. Ainda vou ler algum livro italiano sobre fascismo. Já me indicaram "O Jardim dos Finzi-Contini" de Giorgio Bassani e "Cristo parou em Eboli" de Carlo Levi.

Eu gostei do estilo de narrativa de "A Família Frank que Sobreviveu". Ao mesmo tempo que descreve o drama da família, o livro apresenta a situação econômica, política e militar da Europa no período. Em especial, claro, da Alemanha e da Holanda que são o insólito pano de fundo do relato. Detalha bem o período de depressão econômica e hiper-inflação vividos pela Alemanha após a primeira guerra e que ajudam a explicar o inexplicável da segunda.

Vale ressaltar que o autor do livro é neto dos pais da tal família Frank, e filho de uma das moças que viveram o drama na Holanda. Ou seja, o autor também é um membro da família Frank. Felizmente em um período mais recente. Eu não li "O Diário de Anne Frank". Mas acho que deve ser um belo livro que lerei quando tiver oportunidade. Provavelmente seja até melhor que este livro que estou recomendando aqui, já que é um relato "ao vivo", de alguém que estava lá. Mas só lendo o diário pra saber. Só sei que "A Família Frank que Sobreviveu" é uma ótima leitura.

"A Família Frank que Sobreviveu" no






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quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Αθήνα

Mais uma viagem pra contar. Esse blog vai acabar mudando de nome para "Pé na Estrada" ou algo assim. No fim de semana passado eu e a Tati fomos a Atenas, na Grécia. Um lugar muito legal.

A primeira coisa estranha (e pra mim divertida) que se nota é que os caras usam um alfabeto bem diferente do nosso. Aí tu chegas no aeroporto e tens que descobrir que queres pegar um trem para Αθήνα (Atenas). Quem sabe um pouco de matemática leva vantagem, pois muitas das letras são comumente usadas em equações. Todo mundo conhece o π (pi), e quando tem um π na palavra basta pronunciar como se fosse um "p". Uma letrinha que confunde é o ρ, que parece um "p", mas é "ro", e se pronuncia como "r". Lá pelas tantas, lendo e ouvindo a "próxima estação" no trem é que eu me dei conta disso. Abaixo o alfabeto completo pra quem quiser conferir. Os engenheiros vão reconhecer muitas letras e relembrar as aulas de cálculo, física, ALGA, robótica...bons tempos.


Chegamos na sexta a noite e só deu tempo de bater um rango e ir dormir. No outro dia a Acrópole nos esperava. Falando em rango, comemos muito bem na Grécia. Vale a pena provar uma moussaka (μουσακάς). Também recomendo a Mythos e a Alfa (Aλφα), cervejas locais.

No sábado fomos para a Acrópole, o cartão postal da cidade. Um lugar realmente fascinante, com templos e construções (ou ruínas de templos e construções) de mais de dois mil anos atrás. O principal monumento ali é o Parthenon, dedicado à deusa Atena. Muito legais também os teatros como o teatro de Dionísio. Teatros a céu aberto onde há mais de dois mil anos já existiam peças teatrais. Eu sentei ali e fiquei imaginando o Sócrates ou o Platão discursando naquele palco. Tá, eu viajo. Eu sei. No teatro de Dionísio, o visitante pode se sentar na arquibancada, ou o que sobrou dela, mas não pode entrar no palco e nem sentar em umas cadeiras que ficam mais a frente, onde provavelmente sentavam-se os VIP's da época. O curioso é que um cachorro dormia tranquilamente no meio do palco onde nós, humanos, não podemos pisar. Aliás Atenas é a cidade da Europa onde mais vi cachorros na rua. Talvez seja a única que não implantou algum sistema de carrocinha. Fotos da Acrópole, do teatro de Dionísio e do cachorro filósofo no Picasa.

Depois da Acrópole, fomos a um lugar chamado antiga "Agora". Ali mais ruínas de prédios antigos, mas provavelmente menos antigos que os da Acrópole. Tinha até uma igreja cristã, que obviamente não pode ser de antes de Cristo ;-).

Estávamos em um museu na tal de antiga Agora, admirando algumas peças de 1300 AC quando eu ouço uma voz surgida do nada: "Tati?". Tratava-se do Alex, um amigo da Tati dos tempos da Universidade que, por acaso, encontramos em Atenas. Uma frase dele resumiu muito bem esse encontro: "O mundo é uma ervilha." Muito gente boa o Alex, e também a namorada dele Eve, que é grega e nos contou um pouco sobre a vida na Grécia. Aprendemos por exemplo que a principal religião na Grécia atual é a igreja ortodoxa. Que os gregos adoram aliviar o stress usando Kombolóis e que todos jogam gamão extremamente bem e com uma rapidez quase sobrehumana. Acabamos saindo no dia seguinte com o casal e mais os amigos Vangelis e Panaiotes para beber Ouzo. Uma bebida destilada de aniz, outra coisa que quem vai a Grécia tem que experimentar. Foi muito bom, e muita sorte poder, estando na Grécia, interagir com gregos que não sejam garçons, taxistas ou outros profissionais do turismo.

Demos uma passada também pelo estádio olímpico onde o Vanderlei Cordeiro de Lima chegou em terceiro na maratona das olimpíadas de 2004, depois de ter sido agarrado pelo padre irlandês maluco. Mais um belo lugar. Arquibancadas branquinhas. Aliás é impressionante como Atenas é branca. Chegando de avião a gente já percebeu que a cidade é mais branca que as outras cidades. Talvez para manter a tradição das construções antigas que eram em mármore ou em pedras predominantemente brancas, mesmo os prédios modernos são, em sua maioria, predominantemente brancos. Proporcionando uma bela vista da cidade, seja do avião ou da acrópole, que fica em uma colina, mais alta que o restante da cidade. Aliás, "acrópole" quer dizer "cidade elevada".

No domingo fomos até o templo de Zeus Olimpico e depois para o templo de Poseidon, o deus dos mares. Muito bonito o templo e com uma bela vista do mar Egeu. A Tati chegou a dizer que o lugar é o paraíso. Muito bonito mesmo. Interessante que o Poseidon é o mesmo cara que o Netuno, só que Netuno é o nome dado pelos romanos, que não poderiam aceitar que seus deuses tivessem o mesmo nome dos gregos, mas que talvez não tivessem a mesma criatividade para inventar deuses novos. Ares, deus grego da guerra virou Marte para os romanos, Afrodite virou Venus e por aí vai...até comprei um livro de mitologia pra entender qual é a desses deuses e deusas.

Depois fomos até uma prainha ali perto curtir o tal mar Egeu. E para encerrar tomamos banho em águas termais na região. Foi um belo domingo.

Segunda-feira pela manhã demos uma passeada no bairro de Plaka, onde compramos Kombolóis. Pena que o fim de semana passou tão rápido. Ficou um gostinho de quero mais Atenas. Muito legal. Não deixem de ver as fotos.

sábado, 5 de maio de 2007

História do Blog

Este Blog já tem um ano e meio de vida. Já se chamou "Un Brasiliano nella Svizzera" e agora se chama "Un Brasiliano in Italia". Hoje estou fazendo uma retrospectiva com os posts mais legais para quem quiser lê-los ou relê-los. Na medida que eu escrever mais posts "históricos" coloco os links aqui e vai ter sempre um link ali do lado para a "História do Blog" que vai apontar para este post. Seguem os posts que, por um motivo ou por outro acho os mais interessantes. Os posts estão divididos em categorias auto-explicativas e dentro das categorias em ordem cronológica. Divirta-se!

HISTÓRIA GERAL: Posts relevantes para a "história do blog".

GRANDES VIAGENS: Posts sobre minhas melhores viagens. Servem também como um guia turístico meia-boca.

POSTS SOCIOLÓGICOS: Alguns bons momentos entre familiares e amigos, além de posts que destacam diferenças culturais.

HISTÓRIA COLORADA: Posts sobre o SC Internacional e outros posts relacionados a futebol.

TAGS ÚTEIS: Por fim algumas tags úteis se gostas de:

sábado, 25 de novembro de 2006

Trento

Aviso incluido depois de escrever o post: Esse post ficou extremamente longo, e possivelmente chato para alguns de vocês. Se este for o caso não leiam, vão direto para as fotos que são bonitinhas ;). Eu acho legal história e um pouco de cultura geral e por isso me prestei a escrever as linhas a seguir. Se te interessar, boa leitura. Só não reclames que o texto é longo e/ou chato pois eu já incluí esse aviso no início.

Buenas, chegou a hora de falar um pouco sobre Trento, minha nova cidade. Hoje eu fui fazer um tour pelo centro histórico da cidade. Interessante estar num lugar mais antigo do que o "descobrimento" do Brasil. A cidade foi conquistada pelos Romanos no final do século I. Na época do império Romano, o lugar servia como passagem e descanso de soldados que iam de Roma para o norte da Europa. O nome original da cidade era Tridentum. Em homenagem ao Netuno. Sim, aquele Netuno que é o Deus dos Oceanos. O que a cidade tem a ver com o Oceano? Nada, já que a cidade encontra-se nas montanhas, na região alpina da Itália. Acontece que muitos anos atrás o rio Adige, que corta a cidade passava literalmente por dentro da cidade. Trento então era como Veneza, com canais nas ruas e partes da cidade só acessíveis de barco ou gondola. Daí a associação com Netuno.

Depois da queda do império Romano a cidade trocou de mãos algumas vezes, mas acabou ficando com o "Sacro Império Romano-Germânico", o qual até hoje eu não sabia que existia, mas era como uma "confederação" de regiões católicas que ocupava grande parte do que hoje é a Alemanha, Austria, Belgica, Holanda e essa parte aqui da Itália. Um pouco mais ao norte de onde eu estou, no chamado Alto Adige até hoje a lingua preferida do povo é o Alemão. Inclusive um colega meu, Italiano do Alto-Adige na Universidade, perguntado sobre recomendações de música italiana respondeu não saber, pois ele "é" alemão. Esse Império instituiu aqui em 1027 o governo de principes-bispos, ou seja, o lugar era um "principado episcopal". Um príncipe-bispo era um cara que concentrava o poder político e da Igreja, e na época isso era o maior poder que um cara poderia ter. Ou seja, absolutismo total. A guia do city tour parece que até hoje guarda uma certa mágoa desses caras, pois como todos os soberanos os caras exploravam o povo. Ela disse que havia impostos sobre as moscas na cidade, sobre poeira levantada por cavalos e outras sandices. E claro, qualquer um que falasse contra o "principe vescovo" seria morto sem muita cerimonia. Tal adoração do povo pelos soberanos culminou na construção do Castelo Buonconsiglio. Uma verdadeira fortaleza que servia como moradia dos soberanos para protegê-los de cidadãos mais revoltados. E deu certo. Apesar do povo não aturar o sistema de governo e terem ocorridas inumeras revoltas, o sistema de principado-episcopal durou até 1801, quando Napoleão chegou e dominou praticamente a Europa toda. Depois da "bagunça" napoleonica, a região ficou com a Áustria, mas depois da primeira guerra mundial foi conquistada pela Itália. Eu acho interessante como para nós olhando aí do Brasil (ou pelo menos eu via assim), os países europeus parecem ser reinos que já existiam há muitos séculos, quando isso não é verdade. O Brasil ("independente" de Portugal em 1822), se contarmos a época do Império é mais antigo como país do que países como a Itália (unificada em 1861) e a Alemanha (unificada em 1871) atuais. Paises como a França, a Inglaterra, Portugal e Espanha, me corrijam se estiver errado, são mais antigos e talvez por isso tenham colonizado meio mundo.

É, como podem ver esse city tour cheio de informações históricas me deixou empolgado com questões históricas. Eu não sei o que acontece, mas aqui assuntos como esse me parecem muito mais interessantes do que em toda a minha vida no Brasil. Acho que aqui as pessoas levam mais a sério sua história e tradições. Eu realmente gostaria que minhas meninas estudassem uns anos aqui, e se tudo der certo estudarão, pra terem uma experiencia assim. Por exemplo, esses dias (e mesmo ano passado, ainda em Lugano) andei vendo a versão italiana do "Show do Milhão". No programa aqui se fazem perguntas bastante difíceis sobre história, arte, filosofia, mitologia entre outros. E seja qual for desses assuntos que esteja em pauta, o participante geralmente desenvolve um raciocínio aprofundado sobre o tema até concluir uma resposta. Mesmo que a pessoa não saiba a resposta, começa a "pensar alto" coisas como: "hmm, nessa época o imperador era fulano de tal, então tal resposta não pode ser pois só foi instituida por fulano III, bla bla bla." Muitas vezes a pessoa erra, pois as perguntas são dificeis. Mas só o raciocinio dos caras já é interessante. No show do milhão brasileiro eu vi uma mulher pedir ajuda aos universitários para responder se o telefone 190 era da Polícia Militar ou do disque-pizza. Os universitários "achavam" que era da Polícia Militar.

Uma última nota histórica sobre Trento. Aqui rolou entre 1545 e 1563 o famoso "Conselho de Trento". Uma reunião da Igreja Católica de toda a Europa para se defender das acusações de corrupção da Igreja por parte de Luthero. Segundo me conta a nossa guia turistica, antes desse conselho, ser Padre era a várzea total. Não precisava ter estudo nenhum, nem precisava ficar na paróquia. Os caras viviam basicamente na esbórnia. Depois do conselho passou a ser necessário estudar para ser Padre e a Igreja implantou uma série de regras para que os sacerdotes levassem sua profissão mais a sério. Não que atualmente eles trabalhem muito, mas aí já é minha opinião.

Bom, apesar de toda a história milenar, Trento é uma cidade pequena. Tranquila até demais às vezes. Boate por exemplo não tem na cidade, pois o povo ainda é muito Católico. Esses dias eu e uns colegas de Lugano conhecemos um Garçom aqui em Trento que, vejam só, havia trabalhado muitos anos em Lugano. O Garçom, já um senhor de certa idade não entendia como uma cidade universitária como Trento não tinha "lugares para os jovens se divertirem". O garçom realmente não entendia isso e concluiu: "assim são os trentinos, fazer o que...". O horário italiano também é interessante. O comércio em geral, incluindo alguns supermercados, é das 8:30 da manhã ao meio-dia, e depois das 15:30 às 19:30. Sim, das 15:30! Dá tempo do pessoal curtir uma bela sestia, apesar de aqui não ser a Espanha. Já comentei com Europeus sobre isso e como no Brasil e nas Americas em geral isso é diferente. A resposta padrão: "aqui valorizamos a qualidade de vida, trabalhamos para viver e não vivemos para trabalhar". Como sou cliente e não funcionário de supermercado tendo a discordar, mas se instituissem esse horário também para os estudantes de Doutorado talvez eu até mudasse de idéia. Ah, esqueci de falar. Segunda-feira de manhã também não tem expediente no comércio.

A seguir algumas fotos de Trento. Espero que gostem.


Começo mostrando, acima, minha nova casa. Moro neste prédio, perto do Instituto onde trabalho e há uma meia hora de ônibus do centro de Trento e de todas as outras fotos desse post. Posso dizer que moro "nas montanhas".


Esta é a "Piazza Duomo", local central de Trento, com a estátua de Netuno na fonte ao centro. Ao fundo, a primeira residência dos príncipes-bispos, antes de se mudarem para o castelo mais protegido. Na torre ficavam presos os inadimplentes. Embaixo da árvore eram vendidos os bens dos presos, venda esta que eles podiam assistir do cárcere. Uma espécie de tortura psicológica.


Outra vista da fonte na Piazza Duomo, a noite e com a Catedral ao fundo. A fonte é de 1768. Bem mais recente do que a crença em Netuno, mas já bem antiga.


Aqui a Catedral. Os guarda-sois são bares e/ou restaurantes bem agradáveis. Esta foto e a foto da fonte a noite foram tiradas no verão daqui, antes da minha última ida ao Brasil.


Conta nossa guia turistica que por volta de 1500 rolou uma guerra do nosso "principado episcopal" contra a então república de Veneza para definir onde ficaria a fronteira. A versão dos trentinos é que a fronteira ficou onde o príncipe-bispo queria, e os venezianos foram derrotados, com seu lider militar tendo sido morto. Mas os trentinos tinham respeito por tal lider veneziano, que era também ligado a Igreja de alguma forma, e colocaram essa escultura dele dentro da Catedral de Trento, com a bandeira e o Simbolo de veneza de cabeça para baixo, uma vez que ele foi derrotado.


Detalhe de um vitral da Catedral. Representa a "roda da fortuna". Ao centro, uma mulher (a fortuna) gira a roda. Em volta da roda, no topo um cara com uma vida de rei, e ao longo da roda figuras em diferentes situações com um bonequinho totalmente liquidado na parte de baixo da roda. Moral, podes estar numa boa hoje e "fumado" amanhã, ou vice versa. Interessante que em uma igreja, que deveria pregar que Deus decide tudo, o "acaso" é evidenciado desta forma. Algumas pessoas dizem que "nada acontece por acaso". Eu por minha vez acho que MUITAS coisas acontecem sim, por acaso.


Monumento a Dante Alighieri, o cara que escreveu "A Divina Comédia" que eu ainda vou ler um dia. Ah, nas horas vagas ele também inventou o idioma italiano. Grande poeta esse cara.


Aqui o Castelo Buonconsiglio, onde os Principes-Bispos passaram a morar para se proteger do próprio povo.

Ufa, acho que chega de "blogar" por hoje. Abraço pra ti que leu isso tudo até aqui!