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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Vontade

Vontade de fazer tudo
Vontade de não fazer nada
Vontade de trabalhar duro
Vontade de dar risada

Vontade de sair
Vontade de ficar
Vontade de dormir
Vontade de acordar

Vontade de escrever
Vontade de apagar
Vontade de esquecer
Vontade de abraçar

Vontade de desistir
Vontade de recomeçar
Vontade de insistir
Vontade de terminar

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Livro da Vez:
Rua dos Cataventos & Outros Poemas
Mário Quintana

Dentre as coisas que fiz em Porto Alegre, comprei um livrinho chamado "Quintana de Bolso - Rua dos Cataventos & Outros Poemas" na feira do livro. Bom demais. Li uma parte no Bosque dos Jequitibás em Campinas, uma parte no avião e outra parte aqui na Itália. Não sei se era saudade de ler em português, saudade do bosque, ou se é bom esse Quintana mesmo. Provavelmente as três coisas. Divido com vocês dois dos poemas que mais gostei.

O primeiro, dedico aos meus verdadeiros amigos:

Intermezzo

Nem tudo pode estar sumido

ou consumido…
Deve – forçosamente – a qualquer instante
formar-se, pobre amigo, uma bolha de tempo nessa Eternidade…

e onde
- o mesmo barman no mesmo balcão,
por trás a esplêndida biblioteca de garrafas,
fonte de nossa colorida erudição -
haveremos de continuar aquela nossa velha discussão
sobre tudo e nada
até
que, fartos de tudo e nada,
desta e da outra vida,
a rir como uns perdidos,
a chorar como uns danados,
beberemos os dois nos crânios um do outro…
até o teto desabar!

(Perdão! até a bolha rebentar…)

---

O segundo, fala sobre o que o poeta quer levar quando morrer.

Quando eu Morrer
Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que linda a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!...

Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr-de sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas...

E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto...

---

Na verdade, o que eu mais gosto nesse poema é um simples verso: "Mais o rir das primeiras namoradas..." Pra mim, esse verso já é um poema. Grande Quintana. Recomendo o livrinho, tem muitos outros poemas geniais. Muito bom!

Compre "Quintana de Bolso" no





terça-feira, 15 de setembro de 2009

Nela Rio - Websarau

A minha amiga Andréia Pires faz pesquisa há um bom tempo sobre o trabalho da poetisa argentina Nela Rio. Ela está organizando um "Websarau", onde internautas são convidados a ler um poema da autora e gravar em vídeo. Eu li um poema para participar. Os vídeos de todos que estão participando estão sendo postados no blog Quando Nela Rio, da Andréia. Passem lá para ver as leituras do pessoal. Quem quiser participar lendo um poema também encontra o contato da Andréia lá. Os poemas são muito bonitos. Faz tempo que eu não pronunciava o Espanhol. Foi uma experiência interessante.

A seguir a minha participação:



El dolor descobijado
Dedicado a la niña corriendo en la pantalla, que ya no está.
Estallan bombas
las veo yo y todos.

Lleno de agujas
el atardecer cae.

La niña cae
el corazón herido.

Mi verso quiere
tomarnos de la mano
y estar con ella
vos y yo, ella y aquél.

Nela Rio

Participa tu também!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Poesia Gaudéria

China
Jayme Caetano Braun

A maior das gauchadas
Que há na Sagrada Escritura,
- Falo como criatura,
Mas penso que não me engano! -
É aquela, em que o Soberano,
Na sua pressa divina,
Resolveu fazer a china
Da costela do Paisano!

Bendita china gaúcha
Que és a rainha do pampa,
E tens na divina estampa
Um quê de nobre e altivo.
És perfume, és lenitivo
Que nos encanta e suaviza
E num minuto escraviza
O índio mais primitivo!

Fruto selvagem do pago,
Potranquita redomona,
Teus feitiços de madona
Já manearam muito cuera,
E o teu andar de pantera,
Retovado de malícia
Nesta querência patrícia
Fez muito rancho tapera!

Refletem teus olhos negros
Velhas orgias pagãs
E a beleza das manhãs,
Quando no campo clareia...
Até o sol que te bronzeia
Beijando-te a estampa esguia
Faz de ti, prenda bravia
Uma pampeana sereia!

Jamais alguém contestou
O teu cetro de realeza!
E o trono da natureza
É teu, chinoca lindaça...
Pois tu refletes com graça
As fidalgas Açorianas
Charruas e Castelhanas
Vertentes Vivas da Raça!

A mimosa curvatura
Desse teu corpo moreno
É o pago em ponto pequeno
Feito com arte divina,
E o teu colo que se empina
Quando suspiras com ânsia
São dois cerros na distância
Cobertos pela neblina.

Quem não te adora o cabelo
mais negro que o picumã?
E essa boca de romã
Nascida para o afago,
Como que a pedir um trago
Desse licor proibido
Que o índio bebe escondido
Desde a formação do Pago?

Pra mim tu pealaste os anjos
Na armada do teu sorriso,
Fugindo do Paraíso,
Para esta campanha agreste,
E nalgum ritual campestre,
Por força do teu encanto,
Transformaste o pago santo
Num paraíso terrestre!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Saudade

Saudade da família
Saudade dos meus pais
Da minha irmã
Saudade da minha filha

Saudade dos amigos
Saudade do Cassino
De cervejada, jogatina
Saudade dos meus primos

Saudade do Brasil
Saudade de churrasco
De espeto corrido
Saudade do Beira Rio

Saudade de arroz com feijão
Saudade de anchova assada
Da bela Floripa
Saudade de pastel de camarão

Saudade do sul
Saudade dos gaúchos e gaúchas
Do sotaque papareia
Saudade, uma barbaridade

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Drummond - Ana Cristina Matias

Dos blogs que eu "freqüento", sem dúvida o da Ana Cristina Matias é o mais poético. E esses dias ela postou lá um poema do Carlos Drummond de Andrade bonito demais. O Drummond é sem dúvida o meu poeta preferido. Eu acho que ele escreve de maneira acessível a qualquer pessoa. Algumas poesias por aí são, na minha opinião, muito "pedantes", desnecessariamente complicadas. O Drummond não. Ele é direto. Claro. Não precisa ter nenhum "preparo" para ler o Drummond. Basta ter a vontade de ler. E de se maravilhar. E de se inspirar. O cara é genial. Genial!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Garota de Ipanema - Tom e Vinicius

Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
É ela a menina que vem e que passa
Num doce balanço, caminho do mar

Moça do corpo dourado, do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, por que estou tão sozinho?
Ah, por que tudo é tão triste?
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo por causa do amor

sábado, 23 de agosto de 2008

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Por que?

Por que as pessoas são assim?
Por que no trem vão todos com cara de mau-humor?
Por que nenhum viaja sorrindo?
Por que as pessoas, em geral, não estão nem aí umas para as outras?
Por que existem pessoas cujo objetivo na vida é fazer mal a outras pessoas?
Por que tantos acreditam em coisas tão erradas, supérfluas, estúpidas?
Por que não fazem churrascos?
Por que não abrem uma cerveja?
Por que não abraçam um amigo?
Por que as bombas?
Por que as vinganças?
Por que o egoísmo?
Por que o ciúme?
Por que tantas coisas pequenas, mesquinhas?
Por que? Por que? Por que???