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quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Paulo Autran

Morre um grande artista. Fiquei sabendo segunda-feira pela minha esposa que havia morrido esse grande cara (às vezes as notícias do Brasil demoram a chegar aqui). Pra mim ele era o melhor ator do Brasil. Além de ter uma personalidade admirável. O tipo de pessoa que diz o que pensa e não se preocupa com o que os outros vão pensar ou dizer. Nesse sentido ele era parecido com o Nelson Piquet, outra personalidade que admiro.

Uma pena eu não ter tido a oportunidade de vê-lo no teatro. Quando eu morava em Campinas, a cada peça dele que estreava em São Paulo eu dizia: "Putz, esse mês não dá. O Paulo Autran vai acabar morrendo e eu não vou ver uma peça dele..." Dito e feito.

Uma grande demonstração de personalidade de Autran foi, depois da novela "Sassaricando" ele ter dito que não aguentava mais fazer papel de débil mental na televisão e que nunca mais faria novelas (e nunca mais fez). O cara tem que ser muito ator pra dizer isso e cumprir. E ainda assim ser reconhecido como um grande ator pela TV Globo, a grande central das novelas brasileiras. Novelas aliás que em geral eu acho um lixo, salvo raríssimas exceções.

Outra coisa que eu vi ele dizer, se não me falha a memória naquele programa de entrevistas do Abujamra na TV Cultura, foi a frase: "Deus é o Papai Noel dos adultos". Não é qualquer um que diz uma coisa dessas. Ainda mais na idade que o cara já estava. Aí vem o tal de Juca de Oliveira no funeral do Autran com aquele discurso manjado de que "Isso foi uma passagem apenas. Ele deve estar lá organizando espetáculos para fazer no céu." Nem o Autran acreditava e nem eu acredito nisso. E acho uma falta de respeito (ou de conhecimento) o tal de Juca falar isso no velório dele. Felizmente nenhum outro ator que deu depoimento aqui falou bobagens nesse sentido. Talvez por conhecerem o cara que estavam velando.

Nota: O programa do Abujamra na TV Cultura chama-se Provocações e, na minha opinião é bem melhor que o Programa do Jô (pelo menos atualmente, na época do Jô Soares 11:30 o programa do Jô era bala). Uma vez o Abujamra falou para um convidado que disse não ter curtido Shakespeare: "Não gostastes de Shakespeare? Leia de novo. Se ainda não gostar, leia outra vez. Se tu não gostas de Shakespeare a culpa é tua. Não do Shakespeare." Eu nunca li Shakespeare, não sei se o Abujamra tem razão, mas depois de ouvir isso, até dá até vontade de ler. Mas já aviso que esse "Provocações" tem um formato que não agrada a todos, ou talvez não agrade a quase nenhum. Apesar disso, eu definitivamente recomendo, e acho o Abujamra um outro baita ator. Alguém se lembra do Ravengar?

Nota 2: Do site do Provocações: "Nesta quinta-feira, dia 18 de outubro, às 20 horas, teremos uma reapresentação especial do programa gravado em 2004 com o grande ator, recentemente falecido, Paulo Autran." 2004? Parece que foi ontem que vi essa entrevista. Vale a pena.

domingo, 2 de setembro de 2007

Aida

Ontem eu e a Tati fomos a Arena di Verona onde assisti uma ópera pela primeira vez na vida. Trata-se da ópera Aida do compositor italiano Giuseppe Verdi que é até nome de rua aqui em Trento.

Foi muito interessante conhecer a Arena, uma construção do ano 30 DC. Também foi legal ter assistido uma ópera em um lugar que está entre os melhores do mundo, se não for o melhor, para este tipo de atividade. Claro que ficamos nos lugares mais baratos, na parte superior da arena onde as pessoas sentam-se na arquibancada de pedra original e têm uma visão lateral do palco e não nas cadeiras de veludo que ficam mais perto do palco, mas mesmo assim foi muito legal.

É incrível como os cantores conseguem se fazer ouvir em toda a arena só com suas vozes. Nada de microfone. É mais ou menos como alguém no meio de um campo de futebol conseguir ser ouvido por todo um estádio para cerca de 30.000 pessoas. Por esse motivo e por estarmos bem longe do palco o som me pareceu um pouco baixo. Ontem eu achei que não entendia bem o que estava sendo cantado por esse motivo, mas hoje, ouvindo as canções de Aida em mp3, eu cheguei a conlusão que o problema é mesmo o meu italiano limitado. Talvez se eu pudesse assistir a ópera com legendas em italiano eu conseguisse entender e, entendendo, conseguiria curtir mais o espetáculo. Ontem, a cada uma das poucas frases que conseguia entender eu ficava contente. Mas entender tudo deve ser muito melhor.

Aprendi que ao ir assistir uma ópera, ao contrário de um filme ou um livro, o ideal é já ir conhecendo a história que será apresentada, ou seja, já ir sabendo o final. O esquema é curtir a música e a interpretação, pois assume-se que a história todos já conheçam, afinal trata-se de um clássico. Como assim não conheces a história de Aida? Claro que milhares de turistas como eu naquela arena não conheciam. Em resumo, trata-se do amor proibido de Radamés, guerreiro egípcio pela princesa Etíope Aida. Aida é escrava de Amnéris, filha do faraó que também é apaixonada por Radamés. E tudo isso se dá em meio a uma guerra entre Egipcios e Etíopes. Triunfando em uma batalha contra os Etíopes, Radamés recebe como prêmio a mão de Amnéris para se tornar o futuro faraó. Mas ele não quer isso e prefere tentar fugir com Aida, mas acaba capturado e condenado a morte por sepultamento vivo. Aida, que havia conseguido escapar, retorna e entra no túmulo no último instante, para morrer junto com Radamés.

Verona é mesmo um centro mundial deste tipo de música, tanto que na escola onde a Tati está estudando italiano, muitos alunos de vários lugares estão aprendendo o idioma ali justamente por serem estudantes de canto. Aliás, Aida ontem foi interpretada por uma chinesa, Hui He, e Amnéris pela russa Elena Manistina. Os papéis masculinos, a julgar pelos nomes, foram todos interpretados por italianos.

PS de segunda-feira: Hoje, falando com alguns colegas italianos, vim a saber que muitas vezes nem eles entendem o que cantam nas óperas. Menos mal.