Dos blogs que eu "freqüento", sem dúvida o da Ana Cristina Matias é o mais poético. E esses dias ela postou lá um poema do Carlos Drummond de Andrade bonito demais. O Drummond é sem dúvida o meu poeta preferido. Eu acho que ele escreve de maneira acessível a qualquer pessoa. Algumas poesias por aí são, na minha opinião, muito "pedantes", desnecessariamente complicadas. O Drummond não. Ele é direto. Claro. Não precisa ter nenhum "preparo" para ler o Drummond. Basta ter a vontade de ler. E de se maravilhar. E de se inspirar. O cara é genial. Genial!
SC Internacional, Ramones e Cerveja. Isso tudo existe e ainda tem quem reclame da vida.
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Drummond - Ana Cristina Matias
Dos blogs que eu "freqüento", sem dúvida o da Ana Cristina Matias é o mais poético. E esses dias ela postou lá um poema do Carlos Drummond de Andrade bonito demais. O Drummond é sem dúvida o meu poeta preferido. Eu acho que ele escreve de maneira acessível a qualquer pessoa. Algumas poesias por aí são, na minha opinião, muito "pedantes", desnecessariamente complicadas. O Drummond não. Ele é direto. Claro. Não precisa ter nenhum "preparo" para ler o Drummond. Basta ter a vontade de ler. E de se maravilhar. E de se inspirar. O cara é genial. Genial!
sábado, 23 de agosto de 2008
José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?
Carlos Drummond de Andrade
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