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sábado, 29 de outubro de 2011

Livro da Vez: Casa Grande & Senzala - Gilberto Freyre

Sensacional. Uma sensacional aula de história. Uma verdadeira aula de Brasil. É o tipo de livro que se lê com prazer. O livro que "acrescenta" alguma coisa. E nesse caso é alguma coisa que está dentro de nós mesmos, no inconsciente, na cultura e na história de cada um de nós, brasileiros.

De se ressaltar no livro que ele está falando das pessoas, dos cidadãos, dos índios, dos portugueses e dos escravos negros. Não é um livro sobre os personagens históricos, suas leis, guerras e políticas. Esses são citados apenas de passagem, se tanto. O personagem principal do livro - como também o é da história do Brasil e do mundo - é o cidadão comum. Uma narrativa que se desenvolve em torno dos senhores de engenho, das suas esposas, dos índios, dos negros, dos jesuítas e dos filhos de todos esses. Enfim, em torno do povo brasileiro. Do cotidiano dos tempos coloniais. Às vezes chegando até ao tempo em que foi escrito, no início dos anos 1930.

Trata-se de uma obra extremamente bem documentada. Pesquisa profunda e cuidadosa, citando inúmeras referências. Na edição que eu li, constavam mais de sessenta páginas de bibliografia. Inclusive muitos documentos históricos e jornais do período colonial e do império. Um trabalho muito bem feito. Muito bem feito e muito bem escrito. Um estilo agradável, contundente e que vai além do livro de história para ser também uma obra de literatura, como arte.

Claro que o livro não é cientificamente atualizado ou correto o tempo todo. Há, a meu ver, algum exagero quando ele fala em algumas características genéticas que os povos (e em algum caso, mesmo famílias) possuiriam e que determinariam certas características dessas famílias e povos. Ele também fala em "eugenia" e superioridade de uma "raça" sobre a outra de uma forma que não se fala mais hoje em dia. Quando fala da influência do povo judeu sobre o povo português, por exemplo, chega a beirar o anti-semitismo. Justamente pouco antes da segunda guerra. Mas há que se inserir o autor no contexto do seu tempo, e no princípio dos anos 30, creio eu, a ciência apontava realmente para essas diferenças mais profundas, as quais hoje a ciência nos mostra que não são tão profundas assim, chegando a ser questionado o próprio conceito de "raças" humanas.

Mas o livro transcende essas questões, e faz com que todos os brasileiros se identifiquem com suas origens. Faz com que percebamos de onde viemos e que temos traços do índio, do português e do negro. Uma miscigenação bem sucedida que, pra mim, é um dos maiores motivos de orgulho de ser brasileiro. O fato de que conseguimos conviver em paz e, relativamente unidos como um povo só, independente da diversidade das nossas origens étnicas, culturais ou religiosas tão diversas, enquanto a maioria do resto do mundo ainda se comporta de forma um pouco (ou muito, dependendo do lugar) diferente.

O livro transcende as críticas. Transcende a sociologia e a antropologia. É literatura. E é sobre nós. Sobre o nosso passado. Sobre a nossa infância às vezes. Embora não fale no Rio Grande do Sul, que no período colonial talvez tivesse mais semelhanças com a América espanhola que com o Brasil, é possível, e pra mim inevitável, se identificar com o que ele diz. Mesmo o gaúcho que nunca tenha ido a Bahia, se identifica com o tabuleiro da baiana. Nem que seja através da música do Caetano ou de um gibi do Zé Carioca.

Em resumo, um livro que, ao descrever rituais de danças indígenas, consegue fazer uma ponte para que eu - que nunca sequer vi um índio de perto - consiga identificar nesses rituais lembranças da minha própria infância é um livro especial pra mim. Trata-se de um livro que todo brasileiro deveria ler.


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sábado, 9 de outubro de 2010

Livro da Vez: O Diário de Anne Frank

As citações do texto que coloco aqui estão em inglês, tiradas da edição em inglês do diário que eu li. Sinto muito ao leitor que não entende o inglês, mas eu me senti incapaz de traduzir o sentimento expresso nas citações. Ainda sobre as citações, elas podem estragar um pouco alguma surpresa de quem for ler, mas acho que não muito. São apenas amostras do que é o diário em si. Enfim, se não quer saber detalhes de antemão, não leia o texto a seguir e leia o livro que é bem melhor e eu recomendo muito.

Ler o diário foi, pra mim, um grande prazer. E uma surpresa, pela capacidade que uma "guriazinha" de treze a quinze anos pode ter de escrever. É o tipo de texto em que se nota que o autor, a autora no caso, colocou ali o sentimento. Colocou ali sua honestidade. Em se tratando de uma auto-biografia, nos convidou a conhecer sua vida. Seus sentimentos, sua mais individual e pura intimidade. Talvez parte disso seja porque ela, pelo menos no início, não esperava que alguém além dela mesma fosse ler ou se importar com o que ela estava escrevendo. "it seems to me that later on neither I nor anyone else will be interested in the musings of a thirteen-year-old schoolgirl." O fato de o texto não ter inicialmente o objetivo de ser publicado o torna tão honesto quanto possível. E a honestidade, a sinceridade, a realidade de uma vida sem todas as censuras que a sociedade nos impõe é algo muito bonito e fascinante.

Escrevi um parágrafo sobre o diário de Anne Frank e sequer mencionei a guerra. Isso porque, na minha opinião não se trata de um livro sobre a guerra. Se trata muito mais da vida de uma adolescente. Seus sonhos, seus desejos, suas frustrações, suas dúvidas. Dúvidas que ela coloca de uma forma única. Verdadeira. Impressionante. Visceral, pelo menos pra mim. Com a peculiaridade de essa adolescência ter se dado em meio à segunda guerra mundial. A peculiaridade de ser a menina uma integrante do povo que mais sofreu naquela guerra. E a fatalidade de ela ter sido uma das vítimas daquele massacre. Mas não é também um livro sobre judeus. O texto é de uma humanidade tal que transcende qualquer dos rótulos étnico-religiosos que nós criamos para nos sentirmos melhores que aqueles que são ou acreditam em coisas só um pouco diferentes que nós. Não, o texto não é sobre o judaísmo ou sobre o anti-semitismo. A guerra é o pano de fundo. O cenário. O livro é simplesmente humano. É sobre uma criança - "We had a short circuit last night, and besides that, the guns were booming away until dawn. I still haven't got over my fear of planes and shooting, and I crawl into Father's bed nearly every night for confort. I know it sounds childish, but wait till it happens to you!" - e seu amadurecimento, apesar dos pesares. Apesar das dificuldades. Apesar de tudo, ela tinha que crescer, florescer e expressar esse amadurecimento de uma forma encantadora para todos que queiram admirá-lo.


É um livro sobre amadurecimento: "Sometimes, when I lie in bed I feel a terrible urge to touch my breasts and listen to the quiet, steady beating of my heart. Unconsciously, I had these feelings even before I came here. Once, when I was spending the night at Jacque's, I could no longer restrain my curiosity about her body [...] I asked her whether, as proof of our friendship, we could touch each other's breasts. Jacque refused. I also had a terrible desire to kiss her, which I did.". E sobre a inocência de uma adolescente nos anos 30: "A week ago, even a day ago, if you'd asked me, 'Which of your friends do you think you'd be most likely to marry?' I'd have answered 'Sally', since he makes me feel good, peaceful and safe!' But now I'd cry, 'Petel, because I love him with all my heart and all my soul. I surrender myself completely!' Except for that one thing: he can touch my face, but that's as far as it goes."

A menina é muito madura para a idade ao discutir temas complexos como feminismo, política e claro, o grande assunto de então, a guerra. Guerra que para ela e todos os envolvidos era constante causa de medo, desespero. Ainda que, no caso dela, sem perder a esperança. "I've reached the point where I hardly care whether I live or die. The world will keep on turning without me, and I can't do anything to change events anyway. I'll just let matters take their course and concentrate on studying and hope that everything will be alright at the end."


E, como todo o diário, é também uma invasão aos sentimentos mais íntimos da autora. Intimidade nos sentimentos (ou falta de) sobre a mãe - "I can't talk to her, I can't look lovingly into those cold eyes, I can't. Not ever! -If she had even one quality an understanding mother is supposed to have, gentleness or friendliness or patience or something, I'd keep trying to get close to her. But as for loving this insensitive person, this mocking creature-it's becoming more and more impossible every day!"

Passagem muito curiosa e, de certa forma, bonita: "When you are standing up, all you see from the front is hair. Between your legs there are two soft, cushiony things, also covered with hair, which press together when you are standing, so you can't see what's inside. They separate when you sit down […detalhada descrição anatômica...] The hole's so small I can barely imagine how a man could get in there, much less how a baby could come out. It's hard enough trying to get your index finger inside. That's all that is, and yet it plays such an important role!"

Encerro com uma pequena frase do fim do diário: "Maybe, Margot says, I can even go back to school in September or October.". Especialmente comovente porque sabemos que ela morreria poucos meses depois, em um campo de concentração. Ela que queria tão pura e simplesmente voltar pra escola. Se algum dos leitores do blog tiver alguma explicação racional para a guerra, favor compartilhar nos comentários.

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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Livro da Vez:
Do Androids Dream of Electric Sheep?
Philip K. Dick

Bueno, mais um livro que vale a pena comentar aqui. Coloquei o título em inglês porque o título no Brasil (O Caçador de Andróides) tem mais a ver com o filme ao qual o livro deu origem do que com o livro. Pois é, esse é o livro em que foi inspirado o Blade Runner. Ao contrário do "Clube da Luta" em que o filme é bastante fiel ao livro homônimo, o Blade runner é apenas inspirado no "Do Androids Dream of Electric Sheep?". Depois que eu escrevi este texto eu me dei conta que durante todo o tempo eu assumi que o leitor viu o filme. Se você não viu o filme talvez seja complicado entender algumas coisas que eu escrevi. Mas poxa, é cultura pop. Vá ver o filme, se não viu, e volte aqui depois. O resto do texto é praticamente comparando o filme com o livro.

Sim, existem andróides nas duas obras. Sim, o protagonista é um "caçador de andróides". Mas há muitas diferenças. Os andróides do livro não são chamados de "replicantes" e não possuem força nem inteligência sobre-humanas. No filme o líder dos replicantes chega a quebrar paredes, mas no livro eles são fisicamente humanos, com a única diferença prática sendo a ausência de emoções. Alguns personagens são apresentados em contextos diferentes no livro e no filme. A andróide que no livro é cantora de ópera, no filme virou dançarina com cobras em um bar. O motorista de caminhão "retardado" do livro (se é que retardado é a tradução apropriada para "chickenhead") é engenheiro genético e tem por hobby fabricar brinquedos para uso pessoal no filme, e por aí vai. Não quero falar mais de diferenças específicas para evitar estragar as surpresas de quem não leu o livro.

Uma coisa boa foi o fato de eu praticamente não me lembrar do filme quando li o livro. Eu tinha visto há muito tempo atrás, e só fui rever agora depois de ler o livro. Isso foi bom porque me permitiu imaginar o mundo e os andróides quase sem a influência das imagens do filme. E os andróides do livro, ou os que eu imaginei, são mais humanos e menos bizarros que os do filme. Ok, eles não têm emoções. Eles não dão a mínima se um humano, animal ou andróide morre. Eles matarão um humano ou andróide sem pestanejar se sua sobrevivência depender disso. Mas eles não são violentos gratuitamente como os do filme. Os andróides do livro querem simplesmente sobreviver sem ser escravos nem mortos por nenhum blade runner (termo que também só existe no filme). Desta forma, no livro é possível questionar se seria correto o extermínio de andróides promovido pelos humanos, ao passo que no filme os andróides são tão repulsivos e assassinos que praticamente merecem morrer, com exceção da namoradinha do Harrison Ford. Aliás o protagonista do livro é casado, e o do filme não. Em suma, foi possível pra mim simpatizar com os andróides do livro, mas não com os do filme. Ainda, no livro não há qualquer sugestão de que o protagonista possa ser um andróide, ao contrário do filme em que essa parece ser a explicação mais plausível para a cena do unicórnio.

Há ainda uma série de informações sócio-culturais sobre o mundo futurista que são apenas sugeridas ou sequer mencionadas no filme envolvendo religião, comunicação de massa, drogas e a obsessão dos humanos por animais. Praticamente extintos, os animais são um símbolo de status no mundo imaginado por Dick. O protagonista tem uma "ovelha elétrica", e sonha em ter um animal de verdade, que seria muito caro. Esse é um dos motivos para ele correr atrás das recompensas por andróides. Mas essas questões eu até entendo que são difíceis de se aprofundar no cinema. Já as mudanças no papel dos personagens e na natureza dos andróides são mais para agradar ao diretor do que para adaptar a história à linguagem do cinema.

Mas como reclamar de um clássico do cinema como Blade Runner? É um grande filme, sem dúvida. Mas eu particularmente prefiro o livro. E recomendo. Leia e tre suas conclusões.

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Livro da Vez:
Rua dos Cataventos & Outros Poemas
Mário Quintana

Dentre as coisas que fiz em Porto Alegre, comprei um livrinho chamado "Quintana de Bolso - Rua dos Cataventos & Outros Poemas" na feira do livro. Bom demais. Li uma parte no Bosque dos Jequitibás em Campinas, uma parte no avião e outra parte aqui na Itália. Não sei se era saudade de ler em português, saudade do bosque, ou se é bom esse Quintana mesmo. Provavelmente as três coisas. Divido com vocês dois dos poemas que mais gostei.

O primeiro, dedico aos meus verdadeiros amigos:

Intermezzo

Nem tudo pode estar sumido

ou consumido…
Deve – forçosamente – a qualquer instante
formar-se, pobre amigo, uma bolha de tempo nessa Eternidade…

e onde
- o mesmo barman no mesmo balcão,
por trás a esplêndida biblioteca de garrafas,
fonte de nossa colorida erudição -
haveremos de continuar aquela nossa velha discussão
sobre tudo e nada
até
que, fartos de tudo e nada,
desta e da outra vida,
a rir como uns perdidos,
a chorar como uns danados,
beberemos os dois nos crânios um do outro…
até o teto desabar!

(Perdão! até a bolha rebentar…)

---

O segundo, fala sobre o que o poeta quer levar quando morrer.

Quando eu Morrer
Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que linda a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!...

Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr-de sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas...

E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto...

---

Na verdade, o que eu mais gosto nesse poema é um simples verso: "Mais o rir das primeiras namoradas..." Pra mim, esse verso já é um poema. Grande Quintana. Recomendo o livrinho, tem muitos outros poemas geniais. Muito bom!

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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Livro da Vez: Fight Club - Chuck Palahniuk


Faz um bom tempo que eu não posto nada sobre livros, então chegou a hora. Andei lendo pouco, e coisas que não valiam a pena colocar aqui. Mas "O Clube da Luta" vale muito a pena. Tá, é na linha de livros violentos e talvez até "subversivos", de certa forma. Mas, como eu já fdalei em resenhas de outros livros, eu gosto de livros que desafiem, ofendam, impressionem seja pela beleza, pela violência ou pelo inesperado. Enfim, livros que causem algum efeito no leitor. Acho que todo mundo já viu o filme, então vou seguir sem medo de estragar a "surpresa da história (se alguém ainda não viu este baita filme, que pare de ler por aqui). Além da violência e da subversão, outra característica do "Fight Club" que eu gosto, e talvez seja sua principal característica, é o conflito psicológico. Os conflitos internos que todos nós temos e dos quais Tyler Durden é a personificação extrema. É justamente nessa parte psicológica que o livro acrescenta algo a quem já viu o filme. O livro se aprofunda mais na psicologia, nas idéias e pensamentos do narrador e de Tyler. Não poderia ser diferente, um livro é um veículo melhor para descrever esse tipo de coisa. E nesse sentido foi muito legal ler o livro. Revendo o filme depois de ler, eu prestei atenção em frases e passagens do filme as quais não tinha fixado antes. Acho que a adaptação para o cinema foi muito boa. Dentro do possível, passou-se muito do livro para a tela. Acho que a essência da história está ali. Com as vantagens e desvantagens do veículo de comunicação diferente, e com algumas mudanças na história, principalmente no final, que podem desagradar aos puristas, mas que para mim não fazem muita diferença já que a essência da história foi mantida. E é uma grande história. Impressionante. Enfim, eu recomendo bastante o livro pra quem gostou do filme e o filme pra quem gostou do livro. E qualquer um dos dois pra quem não viu nem leu a história. É algo raro, que ambos filme e livro sejam igualmente bons e se completem desta forma. Me lembro que na época do lançamento do filme, um maluco entrou dando tiros em um cinema em São Paulo. Para evitar coisas do tipo, vá ler/assistir tendo em mente que é apenas um livro/filme. Um livro/filme perturbador, mas apenas um livro/filme. Bom divertimento.

"All the ways you wish you could be, that's me. I look like you wanna look, I fuck like you wanna fuck, I am smart, capable, and most importantly, I am free in all the ways that you are not."
Tyler Durden


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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Livro da Vez: Life of Pi - Yann Martel

Muito bom livro esse "Life of Pi", ou "Vida de Pi" na versão brasileira. Bom pela situação insólita descrita. Bom pela filosofia por detrás da história. Bom pela originalidade. Bom por ser um texto fantástico mas ainda assim crível, descontados alguns "balões" (um "balão", é uma gíria antiga da minha cidade que significa algo "impossível", uma cena de filme em que a pessoa diz "ah, pára, isso aí só em filme mesmo..." é um "balão", ou um "baita balão"). Balões esses que quem tem fé dirá que são "milagres", mas enfim.

A situação insólita em que o livro nos coloca é a seguinte: Piscine Molitor Patel, conhecido por seus colegas de escola como "Pi" é um guri indiano de 16 anos cujo pai é proprietário de um zoológico. Pi pratica, ao mesmo tempo, três religiões: hinduísmo, catolicismo e islã e se interessa muito por animais, aprendendo muito com o pai. A família decide mudar-se para tentar uma vida melhor no Canadá e embarca em um navio da Índia para o Canadá. No mesmo navio estão sendo transportados alguns animais do zoo que foram vendidos para compradores na América. O tal navio naufraga. Como sobreviventes em um barco salva-vidas restam apenas Pi, uma zebra, uma urangotango e um tigre de Bengala. A maior parte do livro trata da sobrevivência do guri nestas condições. Como se já não fosse desesperador o bastante estar perdido no meio do oceano Pacífico, o menino ainda tem que lidar com um tigre, um animal não muito dócil.

O livro é muito bem escrito, e é verdade o que eu li em algum lugar a respeito: "em alguns momentos o livro nos faz sentir o sal da água do mar na pele". É interessante quando o livro nos faz sentir a angústia do personagem. Nos faz sentir como se estivéssemos na pele dele. Na minha opinião esse livro faz isso muito bem.

A filosofia por trás da história tem a ver com fé, religião, Deus e etc. Eu não concordo com a conclusão do livro, mas só comentaria isso em detalhes com alguém que tenha lido o livro, pois não gostaria de falar do final aqui. Mas enfim, é um excelente livro, e como todos os "livros da vez" aqui do blog eu recomendo.

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sábado, 19 de julho de 2008

Livro da Vez:
Meu Nome Não é Johnny - Guilherme Fiuza

Tem alguns temas que parecem inesgotáveis. O tráfico de drogas e a "vida de bandido" entre tiroteios e prisões é um deles. Pelo menos pra mim. Se a coisa for baseada em fatos reais então, melhor ainda. Eu já li "Abusado" e "Estação Carandiru", dois excelentes livros que a esta altura dispensam apresentações. Já vi o "Cidade de Deus" e o "Tropa de Elite" entre muitos outros filmes do gênero. Ontem mesmo eu assisti "American Gangster", com Denzel Washington e Russel Crowe e direção do Ridley Scott. Muito bom filme.

Esse post é sobre mais um livro desse tipo. Desta vez a história de um cara que nasceu na burguesia do Rio de Janeiro, tinha tudo pra ser o que quisesse na vida. E acabou escolhendo ser traficante de cocaína. O livro trata da ascensão e queda de João Estrella, o tal traficante, cujo nome não é Johnny como noticiavam os jornais da época. É um livro menos violento e mais humano que "Abusado", por exemplo. Acho que mostra melhor o lado humano do protagonista. Não há o cenário insólito do morro a ser descrito. O cenário são apartamentos, ruas movimentadas, aeroportos, e outros ambientes que o leitor já conhece, sobrando espaço para o autor focar mais em Estrella, na sua personalidade, desejos e pensamentos.

Enfim, eu sou suspeito para falar, pois como deu pra notar eu gosto do gênero. Mas achei o livro muito bom, e recomendo. Quero muito ver o filme, com o Selton Mello que para mim é um dos melhores (se não for o melhor) atores do Brasil. O problema é que para ver filme brasileiro aqui, só pirateando. E piratear filme brasileiro é crime. Quem sabe eu vejo na próxima ida ao Brasil.

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segunda-feira, 31 de março de 2008

Livro da Vez: Jogo de Damas - David Coimbra


Achei muito bom esse livro do David Coimbra, chefe dos esportes e colunista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Muito bom porque aborda assuntos muito interessantes como história, arte, religião e filosofia. Muito bom porque aborda esses assuntos destacando as mulheres, a própria razão da existência. Muito bom porque aborda esses assuntos sem, em nenhum momento, ser chato ou cansativo. Muito pelo contrário. O livro tem muito bom-humor. Um humor sadio, leve e ao mesmo tempo afiado. Eu gosto de autores que escrevem com naturalidade. O tipo de texto que te faz sentir como se estivesse em uma mesa de bar ouvindo uma história contada por um amigo. Te apresenta uma corrida de bigas na Roma antiga como se fosse um jogo de futebol do domingo passado, ou uma desilusão amorosa do Nietzsche como se fosse a de um conhecido do bairro. Eu achei que o David Coimbra escreve assim. Também acho que o Luis Fernando Veríssimo escreve assim. Talvez seja porque são gaúchos, e portanto, de alguma forma familiares para mim. De qualquer forma, acho que tem algo de especial no jeito que esses caras escrevem, e no seu humor. Difícil um livro fazer a pessoa rir. Rir a ponto de ter que parar a leitura por um tempo. Esse "Jogo de Damas" me fez rir, mais de uma vez.

Melhor ainda que um livro que te faz rir, é um livro que te faz rir e te ensina ao mesmo tempo. Apesar de ser um livro engraçado, me pareceu muito bem pesquisado e baseado em fatos históricos e filosofias reais. Fica claro para o leitor o que é história, o que é um fato engraçado, o que é um pensamento do autor e o que é só uma piada mesmo.

Não sei se eu soube explicar o que é, afinal, esse livro. Seguem uns trechos, para que tenhas uma idéia, caro internauta (ainda se usa essa palavra "internauta"?):

"Nas cidades romanas, antes da Idade das Trevas, havia aquedutos que forneciam água limpa e de boa qualidade à população, havia termas e banhos públicos. Inclusive alguns banhos mistos, onde eram aceitos homens e mulheres ao mesmo tempo. Essa modalidade de banhos descambou para a sacanagem, e era muito divertido."

"Na Inglaterra, uma das filhas de Henrique VIII, Maria, lutaria com tanto denodo em favor do catolicismo que passou à História com a alcunha de Bloody Mary, ou Maria Sanguinária, nome de um drinque de sabor medonho feito com vodka, suco de tomate, limão, sal e molho inglês, não beba isso, peça um chope."

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Livro da Vez:
Vale Tudo - O som e a Fúria de Tim Maia
Nelson Motta


Mais um livro da vez. Dessa vez uma biografia. Gênero que gosto bastante e que ainda não tinha aparecido no blog. Foi bem legal ler sobre o Tim Maia. Uma leitura leve e divertida devido ao bom humor deste grande artista brasileiro. Para dizer a verdade, até os momentos de mau-humor dele são divertidos no livro. Em certa altura, o Tim Maia é identificado como "o punk do funk". Eu concordo muito com esse título, pois o Tim Maia era realmente um punk. Não no sentido musical, mas no sentido de que ele sempre fez o que quis, quando quis e com quem quis. Saber exercer essa liberdade de se fazer o que quer parece óbvio, mas não é. O Tim Maia não estava nem aí para o que os outros iam pensar. Se ele estivesse afim de beber, cheirar e fumar, ele bebia, cheirava e fumava. Não estou dizendo que tudo que ele fez tenha sido "certo". Ter entrado para uma seita dessas criadas pra enganar trouxas e gravado dois discos em homenagem ao "Racional Superior" que foram fracassos totais, até se dar conta que aquela, como todas as outras, seita era uma enganação; o uso e abuso de drogas; a truculência em algumas ocasiões; e as constantes faltas a compromissos e shows são no mínimo atitudes questionáveis e, eu me arriscaria a dizer, até estúpidas. Mas foi o que o cara quis fazer. E por isso eu acho que ele teve uma vida feliz, apesar de todas as dificuldades, da obesidade, das brigas judiciais e prisões.

Além de ter tido uma vida movimentada, o cara é um grande artista e algumas das suas músicas e interpretações são sem dúvida grandes jóias da música brasileira, à qual ele acrescentou magistralmente o ritmo do funk e do soul. O livro fala da composição das músicas, do medo de avião (o cara não embarcava sem tomar muito whisky Chivas Regal antes), dos bastidores dos shows e das ausências em shows entre outros assuntos.

Foi o primeiro livro do Nelson Motta que eu li. Gostei da escrita leve. De como ele trata sexo, drogas e outros temas como devem ser tratados. Como coisas normais e não como um grande tabu. Achei muito honesto o texto, sem querer "puxar o saco" do Tim Maia nem de ninguém. Me deu até vontade de ler o Noites Tropicais, do mesmo autor mas que discute os bastidores da música brasileira em geral, e não só de um artista específico.

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quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Livro da Vez: A Familia Frank que Sobreviveu - Gordon Frank Sander

Não adianta. A segunda guerra mundial é um acontecimento que, não importa o quanto eu leia ou quantos filmes a respeito eu assista, eu não consigo entender. Como pode ter sido possível um governo de um país civilizado e desenvolvido deliberadamente exterminar milhões de pessoas? Milhões de pessoas inocentes, cujo único crime era pertencer a uma religião específica.

Este livro fala sobre a experiência de uma família de judeus alemães durante a segunda guerra. Essa família fugiu para a Holanda quando Hitler assumiu o governo alemão. A decisão de fugir foi tomada na hora certa, mas para o lugar errado, já que alguns anos depois a Holanda seria anexada ao Reich. O título do livro faz analogia à família de Anne Frank. Que, de maneira semelhante à família retratada no livro, fugiu para a Holanda e, quando a Alemanha conquistou a Holanda se escondeu na clandestinidade. A família do livro sobreviveu, ao contrário da de Anne Frank (da qual só sobreviveu o pai). Anne Frank é conhecida por ter deixado um diário contando suas experiências naquele período conturbado. Tal diário é leitura obrigatória em escolas aqui na Europa. Talvez isso contribua para que algo do gênero não volte a acontecer. Talvez.

Aquela guerra teve um impacto sobre a Europa que ainda hoje se pode sentir. Certa vez, no ônibus, eu não sei nem por que, mas um senhor italiano começou a gritar e xingar um outro cara de fascista. E a dizer que os estrangeiros trabalham e ajudam a Itália a ser o que é. Eu imagino que o tal cara tenha tomado alguma atitude preconceituosa contra algum estrangeiro. O fato é que o tal senhor estava indignado e chamou o cara de fascista e desatou a falar de todos os males que o fascismo causou aos italianos. Outro dia, tomando cerveja com amigos na Piazza Duomo, um senhor de certa idade chegou na nossa mesa perguntando se sabíamos que o fascismo ainda existe na Itália. Respondi que achava que não, que era coisa do passado. Ele, meio indignado, procurou justificar a nossa "ignorância" dizendo algo como: "hmpf, não são italianos, não sabem de nada..." Alguns dias depois, vendo no Le Iene uma reportagem sobre quem seria a "madrinha dos caminhoneiros" da Itália, um dos caminhoneiros entrevistados não tinha nenhum pôster de mulher nua ou seminua na boléia. Mas tinha um pôster do Mussolini. Aquilo me fez pensar que talvez o velhinho paranóico que veio falar conosco na Piazza Duomo tenha alguma razão. Espero que não. Ainda vou ler algum livro italiano sobre fascismo. Já me indicaram "O Jardim dos Finzi-Contini" de Giorgio Bassani e "Cristo parou em Eboli" de Carlo Levi.

Eu gostei do estilo de narrativa de "A Família Frank que Sobreviveu". Ao mesmo tempo que descreve o drama da família, o livro apresenta a situação econômica, política e militar da Europa no período. Em especial, claro, da Alemanha e da Holanda que são o insólito pano de fundo do relato. Detalha bem o período de depressão econômica e hiper-inflação vividos pela Alemanha após a primeira guerra e que ajudam a explicar o inexplicável da segunda.

Vale ressaltar que o autor do livro é neto dos pais da tal família Frank, e filho de uma das moças que viveram o drama na Holanda. Ou seja, o autor também é um membro da família Frank. Felizmente em um período mais recente. Eu não li "O Diário de Anne Frank". Mas acho que deve ser um belo livro que lerei quando tiver oportunidade. Provavelmente seja até melhor que este livro que estou recomendando aqui, já que é um relato "ao vivo", de alguém que estava lá. Mas só lendo o diário pra saber. Só sei que "A Família Frank que Sobreviveu" é uma ótima leitura.

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segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Livro da Vez: O Caçador de Pipas - Khaled Hosseini


Eu costumava chamar isto de "livro do mês". Acontece que eu acho que não posso cumprir o "compromisso" de ler um livro BOM por mês. Em agosto eu estava com meus pais e minha irmã, e não tive tempo de ler nada. Em setembro eu li "Neve", do autor turco Orham Pamuk que acabou de ganhar o Nobel de literatura em 2006. "Neve" é um livro interessante. Principalmente por apresentar-nos um pouco da cultura turca e os conflitos entre os costumes muçulmanos e o governo secular. Mas não achei o livro bom o bastante para colocá-lo como "livro do mês". Não que o livro seja ruim, mas não achei bom o bastante para indicá-lo aos amigos, principalmente por ser meio parado em alguns momentos de suas quase 500 páginas. Conclusão: resolvi mudar o nome do "bagulho" de "livro do mês" para "livro da vez". E aí sempre que eu tiver lido algum livro interessante eu recomendo-o. Pode ser uma vez por semana, uma vez por mês, uma vez por ano... who cares? Acho mais importante a qualidade.

Bom, vamos então ao livro da vez:

O maior mérito de "O Caçador de Pipas", de Khaled Hosseini, é ter personagens capazes de conquistar a empatia do leitor. Amir é um guri vivendo no Afeganistão dos anos 70, cujo melhor amigo é seu empregado Hassan. Esse Hassan é um "hazara", uma etnia que, aos olhos da cultura vigente, só existe para servir aos demais afegãos ("pashtuns"). A maior diversão dos dois é participar de campeonatos de pipas (ou pandorgas, como as chamamos no Rio Grande do Sul), então populares naquele país. O objetivo de tais campeonatos é ir derrubando as pandorgas dos outros caras até ser o dono da última pandorga no céu de Cabul. A vida é um mar de rosas até acontecer um evento que mudaria para sempre a vida dos dois malucos. Um tempo depois do tal evento, Amir e seu pai, em meio a invasões russas no Afeganistão acabam emigrando para os EUA. Mas as circunstâncias acabam trazendo Amir de volta ao Afeganistão anos depois, dessa vez em meio ao regime talibã, em uma tentativa de exorcizar o seu passado.

O livro é divertido, emocionante até, e "prende" o leitor. Além de mostrar um pouco da cultura do Afeganistão para o resto do mundo.

Li em outro livro (Mulheres de Cabul, de Harriet Logan), que um dos decretos do Talibã dizia simplesmente: "Pipas são proibidas". Esse "Mulheres de Cabul" também é legal. Trata-se de uma série de depoimentos de mulheres que viveram o regime Talibã. E sabe-se que as mulheres sofriam ainda mais que o restante da população com a situação. Mas eu achei mais interessante "O Caçador de Pipas".

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segunda-feira, 9 de julho de 2007

Livro do Mês: Mate-Me Por Favor - Legs McNeil e Gillian McCain


Livro que conta a história das principais figuras do punk rock. Um clássico. Conta trechos sensacionais da vida de figuras como Iggy Pop, Dee Dee Ramone, Johnny Rotten, Sid Vicious e Johnny Thunders entre outros. Esses caras, além de mitos do melhor tipo de rock que existe eram totalmente malucos. Vejam o Dee Dee Ramone por exemplo. O cara no fundo do poço, viciado em heroína a ponto de ser garoto de programa para comprar droga. E depois dessa decadência o cara acaba se tornando o melhor compositor da melhor banda de todas (pra mim, junto com os Beatles). Esse cara pra mim é um vencedor. O livro é cheio de histórias de junkies, de doideiras, drogas, sexo e violência. Tudo narrado através de depoimentos de pessoas que viveram as cenas. Não se sabe se tudo que está ali é verdade. São depoimentos. Mas é tudo muito legal. Muito real. Muito cru como devem ser as coisas. É tudo mais autêntico. Por exemplo, em um show do Zezé de Camargo e Luciano eu garanto que muitas garotas vão ao show para tentar transar com aqueles caras. Mas todas de maneira hipócrita não assumem isso. Num show de punk rock também acontece o mesmo, mas as garotas punk rocker, chamadas de "groupies" fazem isso e assumem. Falam abertamente o que queriam fazer e fizeram. Enfim, tudo é espontâneo e real. Grande trabalho dos autores em editar esses depoimentos todos em uma ordem cronológica e que nos conta grandes momentos da história deste que é o mais rock dos rocks. Hey Ho, Let's Go!

O trecho a seguir mostra a loucura dos caras. Para terem uma idéia do que é esse livro. E não, não sou de drogas e não aconselho a ninguém. Particularmente, prefiro cerveja. Mas não tenho nada contra quem usa-as. "Faz o que tu queres", dizia o Raul. E acho muito interessantes histórias de junkies como a do trecho a seguir. Aliás, mais um não aconselhável para os menores e os que se chocam facilmente.

“Dee Dee Ramone: (…) De repente eu tinha uma enorme quantidade de speed na minha mão. Comecei a cheirar feito um louco. Fiquei muito louco. E então vi Sid, e ele disse: ‘Você tem alguma coisa pra se chapar?’ Eu disse: ‘Yeah, tenho speed.’ Então Sid sacou um kit de apetrechos, botou um punhadão de speed na seringa e daí enfiou a agulha na privada, com todo o vômito e mijo, e encheu. Não pôs no fogo. Só sacudiu, enfiou no braço e saiu do ar. Fiquei só olhando pra ele. E eu que até ali achava que já tinha visto de tudo. Ele olhou pra mim meio zonzo e disse:’Cara, onde você conseguiu essa coisa?’ ”

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segunda-feira, 4 de junho de 2007

Livro do Mês: Abusado - Caco Barcellos


Este livro mostra a realidade nua e crua do tráfico de drogas nas periferias brasileiras. Trata-se de uma grande reportagem do jornalista Caco Barcellos sobre a vida do Marcinho VP, um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro, membro do Comando Vermelho e "dono" do morro Dona Marta, enquanto estava vivo. Quem não suporta violência não deve ler. Estranho que este é o segundo livro do mês em que eu tenho que escrever esse aviso sobre violência. Será que eu gosto de ler sangue? Acho mais que eu gosto de livros que me provoquem alguma reação. Seja de medo, de revolta, de diversão ou de descoberta científica. Enfim, livros que acrescentem alguma coisa. Livros que me façam sentir que de certa forma não sou mais o mesmo cara que era antes de ler o livro, pois aprendi algo. E este livro é um belo exemplo. Têm-se uma profunda noção do que é o mundo tanto dos traficantes quanto da população comum das favelas cariocas e, imagino, da periferia de outras grandes cidades brasileiras. Recomendo. Quer um parâmetro de comparação? O livro vai mais ou menos na linha do filme Cidade de Deus. Aliás imperdível esse filme também. Pra encerrar só queria dizer que admiro a coragem do repórter de conviver com traficantes dos mais perigosos por um bom tempo pra contar esta história. Posso dizer que esse cara é realmente um jornalista. Ainda mais o Caco Barcellos, que se quisesse poderia tranquilamente passar o resto de seus dias curtindo o ar-condicionado dos estúdios da Rede Globo, sem se envolver em reportagens desse tipo.

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quinta-feira, 3 de maio de 2007

Livro do Mês: O Império Americano - Noam Chomsky


Bom, em primeiro lugar eu não tenho nada contra os Estados Unidos. Alguns dos meus melhores amigos aqui na Europa são americanos e entre os melhores lugares que já estive na vida estão a Florida e Nova Iorque. Mas este livro nos mostra os riscos do domínio global americano. Nos mostra o poder e a influência que os EUA exercem sobre o mundo todo, o que me dá um certo desconforto. O livro expõe algumas incoerências dos Estados Unidos. Por exemplo, no fim dos anos 60 a URSS colocou alguns misseis nucleares em Cuba, "apontados" para os Estados Unidos. O que foi tachado pelo governo americano e pela mídia mundial como uma ameaça, um absurdo, o momento de maior perigo para a segurança do planeta em todos os tempos. Acontece que muitos anos antes os EUA tinham mísseis do mesmo tipo instalados na Turquia e "apontados" para a URSS. Claro que neste caso não havia nenhum perigo, pois os mísseis americanos são do bem e lutam pela liberdade, etc. Como eu disse, nada contra os EUA. Tenho amigos americanos (embora eles sejam leitores do Chomsky, que também é americano) e a maioria dos europeus ainda defende muito os EUA por causa da segunda guerra mundial. Ocasião esta em que o papel dos Estados Unidos foi sem dúvida fundamental para a vitória dos aliados. O problema são as incoerências. Quando a ditadura é aliada eles a defendem (ex: ditaduras militares na América do Sul, regime racista do apartheid sul-africano...). Quando a ditadura não lhes convem eles querem lutar pela "democracia". Os aliados dos EUA sempre são bem vistos pelos EUA e pela imprensa mundial, ao passo que os que discordam dos EUA muitas vezes são apontados como terroristas. Sem falar que as normas da ONU servem para todos os países menos para os EUA, que podem decidir invadir o Iraque ou qualquer outro país com ou sem a aprovação da ONU. Vale a pena ler o livro, para abrir os olhos a respeito da única super potência do mundo moderno. Enfim, segue um trecho do livro que foi publicado pela Folha de São Paulo.

"
Capítulo I - Prioridades e Perspectivas

Alguns anos atrás, um dos grandes nomes da biologia contemporânea, Ernst Mayr, publicou algumas reflexões sobre as chances de sucesso na busca de inteligências extraterrestres. Para ele, essa probabilidade era remota. Suas conclusões tinham a ver com o sentido adaptativo do que chamamos "inteligência superior", ou seja, a forma especificamente humana de organização intelectual. Mayr estimou o número de espécies desde a origem da vida em cerca de cinqüenta bilhões, uma única das quais "atingira o tipo de inteligência necessária a gerar uma civilização." Isso ocorreu em passado bem recente, há cerca de cem mil anos. Costuma-se supor que apenas um pequeno grupo tenha sobrevivido, do qual somos todos descendentes.

Mayr especulou que a forma humana de organização intelectual talvez não se deva à seleção. A história da vida na Terra, escreveu, contradiz a afirmação de que "é melhor ser inteligente do que burro", ao menos a julgar pelo sucesso biológico de besouros e bactérias, por exemplo, muito mais bem-sucedidos do que os humanos em termos de sobrevivência. Ele acrescentou, ainda, o sombrio comentário: "a expectativa média de vida de uma espécie é de cerca de cem mil anos".

Estamos entrando em um período na história humana que talvez possa esclarecer se é melhor ser inteligente do que burro. A perspectiva mais otimista é a de que a pergunta não seja respondida: se houver uma resposta definitiva, ela só poderá ser a de que os humanos resultaram de algum tipo de "equívoco biológico", usando os cem mil anos que lhes foram reservados para destruir uns aos outros e, nesse processo, muitas coisas mais.

Sem dúvida, a espécie desenvolveu a capacidade para fazer precisamente isso, e um hipotético observador extraterrestre poderia concluir que os humanos demonstraram tal capacidade ao longo da história, dramaticamente nas últimas centenas de anos, agredindo o meio-ambiente que sustenta a vida, a diversidade de organismos mais complexos, e com selvageria fria e calculada, também uns aos outros.

AS DUAS SUPERPOTÊNCIAS
O ano de 2003 começou com várias indicações de que os temores acerca da sobrevivência humana são bastante realistas. Para mencionar apenas alguns exemplos, no início do outono de 2002, descobriu-se que uma guerra nuclear, possivelmente terminal, por pouco não acontecera, quarenta anos atrás. Logo após essa descoberta chocante, o governo Bush barrou os esforços da ONU para banir a militarização espacial, uma grave ameaça à sobrevivência. O governo igualmente suspendeu as negociações internacionais para impedir armas biológicas e tratou de garantir a inevitabilidade de um ataque ao Iraque, apesar da oposição popular sem precedentes históricos.

Organizações de assistência com vasta experiência no Iraque e estudos desenvolvidos por organizações médicas respeitadas advertiram que a invasão planejada poderia provocar uma catástrofe humanitária. As advertências foram ignoradas por Washington e pouco interesse despertaram na mídia. Uma força-tarefa americana de alto nível concluiu que é "provável" a ocorrência de ataques com armas de destruição em massa (WMDs) dentro dos Estados Unidos, probabilidade essa que aumentaria no caso de uma guerra com o Iraque. Vários especialistas e agências de inteligência se pronunciaram na mesma linha, acrescentando que a beligerância de Washington — e não apenas com relação ao Iraque — vinha fazendo crescer a velha ameaça do terrorismo internacional e da proliferação das armas de destruição em massa. Todas essas advertências foram ignoradas.

Em setembro de 2002, o governo Bush anunciou sua Estratégia de Segurança Nacional, que declarava ser seu direito recorrer à força para eliminar qualquer ameaça detectada contra a hegemonia global americana, prevista para ser permanente. A nova grandiosa estratégia causou preocupação no mundo todo, inclusive nos peritos em política externa nacionais. Também em setembro, foi lançada uma campanha de propaganda para pintar Saddam Hussein como uma ameaça iminente aos Estados Unidos, insinuando que ele fora responsável pelas atrocidades de 11 de setembro e que planejava outras. A campanha, programada para coincidir com as eleições de meio de mandato para o Congresso, atingiu em cheio seu alvo. Em pouco tempo, a opinião pública americana tomou direção diversa da opinião pública global, auxiliando o governo a alcançar seus objetivos eleitorais e transformar o Iraque em teste válido para a recém-anunciada doutrina de recorrer à força quando lhe convier.

O presidente Bush e seus colegas também continuaram sabotando os esforços internacionais para reduzir as ameaças ao meio-ambiente que são reconhecidamente graves, com pretextos que mal disfarçavam sua dedicação a setores restritos do poder privado. O Programa Científico de Alteração Climática (CCSP) do governo, observou o editor Donald Kennedy da revista Science, é uma paródia que "não inclui qualquer recomendação sobre limitação de emissões (de poluentes) ou outras formas de minimização (das conseqüências)", contentando-se com "metas voluntárias de redução, que, ainda que cumpridas, não impediriam o crescimento das taxas de emissão americanas em cerca de 14% a cada década." O CCSP sequer considerou a possibilidade, sugerida por "um crescente número de indícios", de que o aquecimento global a curto prazo por ele ignorado "detonará um abrupto processo não-linear", produzindo drásticas mudanças de temperatura capazes de gerar enormes riscos para os Estados Unidos, a Europa e outras zonas temperadas. "A postura insolente quanto à cooperação multilateral para solução do problema do aquecimento global" do governo Bush, acrescentou Kennedy, foi "o ponto de partida do longo e contínuo processo de erosão das relações com a Europa", que levou a um "ressentimento latente".

Em outubro de 2002, já era difícil ignorar o fato de que o mundo estava "mais preocupado com o uso desenfreado do poder americano do que... com a ameaça representada por Saddam Hussein", e "tão decidido a limitar o poder do gigante quanto... a privar o tirano de suas armas." A preocupação mundial aumentou nos meses seguintes, quando o gigante deixou claro seu intento de atacar o Iraque, ainda que as inspeções da ONU, relutantemente toleradas por ele, não tivessem conseguido revelar armas para lhe servirem de pretexto. Em dezembro, as pesquisas internacionais demonstraram que, fora dos Estados Unidos, o apoio aos planos de guerra de Washington mal chegava a 10%. Dois meses mais tarde, depois de enormes protestos no mundo todo, a imprensa concluiu que "talvez ainda existam duas superpotências no planeta: os Estados Unidos e a opinião pública mundial" ("os Estados Unidos" aqui entendido como o poder estatal, não a opinião pública ou mesmo a da elite americana).

Estudos revelaram, no início de 2003, que o medo inspirado pelos Estados Unidos atingira picos impressionantes no mundo todo, juntamente com a desconfiança em sua liderança política. O menosprezo pelas necessidades e direitos humanos elementares combinava-se a uma demonstração de desdém pela democracia para o que não é fácil achar paralelos, tudo isso acompanhado de discursos abundantes em promessas de devoção aos direitos humanos e à democracia. O que se seguiu deve ser profundamente inquietante para todos aqueles que se preocupam com o mundo que deixarão para seus netos.

Embora os estrategistas de Bush se encontrem em um ponto extremo do espectro político americano tradicional, seus programas e doutrinas têm vários precursores, tanto na história dos Estados Unidos quanto entre aspirantes anteriores ao poder global. Mais sinistro ainda é o fato de que suas decisões podem não ser irracionais no âmbito da ideologia corrente e das instituições que a encarnam. Não faltam precedentes históricos de líderes dispostos a ameaçar ou usar de violência frente a significativos riscos de catástrofe. Hoje, porém, o perigo é bem maior. A escolha entre hegemonia e sobrevivência poucas vezes foi exposta de forma tão evidente — se é que algum dia realmente o foi.

Tentemos desenrolar alguns dos muitos fios que se entrelaçam nessa complexa trama, focando nossa atenção na potência mundial que proclama sua hegemonia global. Suas ações e doutrinas norteadoras devem ser a principal preocupação de qualquer ser deste planeta, principalmente, é óbvio, dos cidadãos americanos. Muitos gozam de vantagens e de uma liberdade incomuns, o que os capacita a moldar o futuro, devendo encarar com cuidado as responsabilidades diretamente decorrentes de tal privilégio.
"

Curiosidade: Esse foi o primeiro livro que eu li em italiano. Até tentei achar algo em inglês, mas aqui em Trento é difícil encontrar, então encarei a versão italiana mesmo. Diria que deu para entender uns 90% do livro.

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domingo, 1 de abril de 2007

Livro do Mês: Pornô - Irvine Welsh



Este livro é a continuação de "Trainspotting", do mesmo autor. Quem não conhece precisa ver o filme homonimo e/ou ler o livro. Bom, Trainspotting conta a história de um bando de "liquidados", viciados em heroina no Leith, um bairro da cidade escocesa de Edimburgo, cidade do autor dos livros. Tanto o livro como o filme Trainspotting são um tanto perturbadores e não-convencionais, o que torna-os interessantes. Uma cena interessante do filme mostra uma personagem totalmente sedada falando que "heroina é 10000 vezes melhor que um orgasmo". Essa citação pode dar uma certa curiosidade, mas o resto do filme/livro com certeza convencerão o espectador/leitor que não é uma boa idéia experimentar a droga. Se não lestes/vistes Trainspotting talvez seja bom não ler sobre o Pornô (próximos parágrafos), pois podes encontrar "spoilers" sobre o final do Trainspotting.

Mas esse post é sobre o "Pornô", que se passa 10 anos depois que o Renton fugiu com a grana dos outros malucos do Leith. Renton agora mora em Amsterdam, onde abriu uma boate e encontrou um certo sucesso profissional, embora sua vida amorosa continue não lá essas coisas. Os outros personagens do Trainspotting ainda não se deram bem na vida, o que não é nenhuma surpresa dada a situação dos malucos. A história se desenvolve durante a tentativa do "Sick Boy" de produzir um filme pornô, já que este ramo do entretenimento é extremamente lucrativo. Nesta empreitada o Sick Boy acaba reencontrando os personagens de Trainspotting e uma nova personagem aparece, a sexy estudante de cinema Nikki. O livro é narrado sempre em primeira pessoa, com o Sick Boy, o Renton, o Spud, a Nikki e o Frank Begbie, que está para sair da cadeia, se alternando na narração. Sick Boy, Renton e Nikki narram em inglês "normal" na versão original enquanto Begbie e Spud contam suas aventuras em "escocês". Na versão brasileira o "escocês" é traduzido para um português coloquial ao extremo e sem meias-palavras, como pode-se notar no trecho que reproduzo no fim do post.

Frank Begbie é talvez o personagem mais psicótico que eu já li. O cara é um verdadeiro marginal e ainda por cima perturbado pela neurose causada pela cocaína. É muito legal ler os capítulos em que ele é o narrador. O cara descrevendo as coisas na sua logica distorcida de psicopata como se o seu modo de ver o mundo fosse a coisa mais natural do mundo. E nesse segundo livro ele está muito mais alucinado que no Trainspotting. Evidentemente ele ainda não esqueceu que o Renton fugiu com a grana dela dez anos atrás. Diversão garantida, com exceção talvez dos que têm algum problema com violência. Aliás, quem tem algum problema moral com drogas, sexo e/ou violência não leia o livro, pois o texto é extremamente cru no que tange a esses temas. Não usa meias palavras.

Não leia o trecho a seguir se tem algum problema com violência.

Trecho: Frank Begbie chega na casa da ex-mulher bem depois de receber um telefonema dela dizendo que seus filhos Sean e Michael haviam brigado e que havia muito sangue...

"Depois de tomar uns copo eu vou até lá e vejo a June no pé da escada, discutindo com alguma vaca que dá meia-volta e se manda pra casa assim que me vê chegando. -Onde cê tava? Tô esperando um táxi! - ela diz.

- Tratando duns negócio - digo, olhando pro Michael. O viadinho tá segurando um trapo no queixo. Tá todo coberto de sangue.

Olho pro Sean e caminho na direção dele, que vai recuando e se encolhendo de medo. - Que porra cê andou fazendo?

Ela mete a bunda gorda no meio. - Poderia ter cortado o pescoço dele. Podia ter aberto uma veia, porra!

- Mas que caralho aconteceu aqui afinal?

Os olho dela quase saltam pra fora do melão, como se ela tivesse tomado alguma droga. - Ele pegou um pedaço de arame e amarrou bem esticado de lado a lado na porta, bem na altura do pescoço do Michael. Aí gritou pra chamar o moleque, dizendo que tava passando ET na televisão, aquela propaganda de telefone em que o garoto defende um pênalti do Hibs contra o Hearts, sabe? Aí o Michael veio correndo todo animado. Sorte que o outro não tinha medido direito e o arame acabou não pegando na altura do pescoço. Se tivesse, podia ter arrancado a cabeça dele fora!

Mas aí eu fico pensando que isso foi até bem massa, porque no meu modo de ver isso mostra uma certa iniciativa. Eu e o Joe vivia fazendo essse tipo de coisa um com o outro, quando a gente era pequeno. Pelo menos mostra que ele tem o espírito de fazer umas coisa prática em vez de ficar o tempo todo sentado jogando aquelas porra de videogame que nem uns moleque faz hoje em dia. Olho pro Sean.

- Tirei isso do Esqueceram de Mim 2 - ele diz.

Aí só dou uma olhada pra June, essa vadia abobalhada de merda, com minhas mãos no quadril. - Então a porra da culpa é sua - digo pra ela - deixando ele assistir essas porra de filme.

- Porra, como assim é minha...

- Mostrando esses filme de merda que ficam botando idéia violenta na cabeça dos moleque - interrompo a vadia, mas não vou discutir com ela, não aqui bem no meio da rua, porra. Porque se eu fizer isso ela vai acabar levando umas porrada e foi bem isso que estragou nossa relação, a vaca desgraçada ficava me provocando até que eu era obrigado a amassar a cara dela."

[...]

No táxi:

"O fiadaputinha continua segurando o trapo no queixo. [...] -Ele pega muito no seu pé?-pergunto.

- Sim - diz o Michael, e os olho dele tão brilhoso como os de uma menininha.

Esse viadinho tá precisando ouvir algumas palavras de sabedoria e precisa ouvir isso agora mesmo, senão a vida dele vai ser um inferno quando ele crescer. Não tem merda mais certa que essa. [...] - Olha só, não começa a chorar por causa disso, Michael. Eu era mais novo que o seu tio Joe e também levei muita porrada. Cê precisa aprender a se defender. É só arranjar uma porra dum taco de beisebol e dar uma bordoada bem no melão daquele fiadaputa, espera tipo até ele dormir. Isso vai dar um jeito nele. Funcionou com o Joe, só que no meu caso eu fui lá e quebrei um tijolo no melão dele. Ele pode ser mais forte que você, mas não mais forte que meio tijolo estourado no melão dele."

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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Livro do Mês: 64 Contos de Rubem Fonseca



Estou começando aqui no blog uma coisa que chamei de "Livro do Mês". A idéia é eu sugerir todo o mês um livro que acho muito bom. No início vai ser fácil, pois eu já li alguns livros que achei muito bons na vida. Mas a idéia é que fazendo isso eu faça o possível para ler pelo menos um livro muito bom por mês. Vamos ver se consigo.

Para a estréia, selecionei este 64 contos do Rubem Fonseca. É um baita dum livro e recomendo a todos vocês. Aliás recomendo qualquer livro de contos do Rubem Fonseca. Em primeiro lugar, o bom de ler contos é que podes ler um em um dia, outro daí 6 meses. O tempo pra ler um conto são aquelas 2 horinhas de bobeira no sábado. Não ficas "preso" em um livro por muitas horas ou mesmo dias. Podes ler o livro em doses homeopáticas. Eu recem terminei estes 64 contos, e já tenho o livro há uns 2 anos. Rubem Fonseca é um excelente escritor. Fala de violência e sexo de uma forma única e absurdamente inteligente. Imperdível.

Trecho: Do conto "Feliz Ano Novo"

Puxamos um Opala. Seguimos para os lados de São Conrado. Passamos várias casas que não davam pé, ou tavam muito perto da rua ou tinham gente demais. Até que achamos o lugar perfeito. Tinha na frente um jardim grande e a casa ficava lá no fundo, isolada. A gente ouvia barulho de música de carnaval, mas poucas vozes cantando. Botamos as meias na cara. Cortei com a tesoura os buracos dos olhos. Entramos pela porta principal.

Eles estavam bebendo e dançando num salão quando viram a gente.

É um assalto, gritei bem alto, para abafar o som da vitrola. Se vocês ficarem quietos ninguém se machuca. Você aí, apaga essa porra dessa vitrola!

Pereba e Zequinha foram procurar os empregados e vieram com três garçons e duas cozinheiras. Deita todo mundo, eu disse.

Contei. Eram vinte e cinco pessoas. Todos deitados em silêncio, quietos, como se não estivessem sendo vistos nem vendo nada.

...

Quer mais? Compre o livro ;-).

Livros da Vez - Arquivo

Maio de 2009: Chuck Palahniuk, Fight Club
Agosto de 2008: Yann Martel, Life of Pi, Canongate Books
Julho de 2008: Guilherme Fioza, Meu Nome Não É Johnny, RecordMarço de 2008: David Coimbra, Jogo de Damas, L&PM
Fevereiro de 2008: Nelson Motta, Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia, ObjetivaNovembro de 2007: Gordon Frank Sander, A Família Frank que Sobreviveu, Zahar
Outubro de 2007: Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas, Nova Fronteira
Julho de 2007: Legs McNeil e Gillian McCain, Mate-Me Por Favor, L&PM
Junho de 2007: Caco Barcelos, Abusado, Record
Maio de 2007: Noam Chomsky, O Império Americano, Campus
Abril de 2007: Irvine Welsh, Pornô, Rocco
Março de 2007: Carl Sagan, O Mundo Assombrado Pelos Demônios, Cia das Letras
Fevereiro de 2007: 64 Contos de Rubem Fonseca, Cia das Letras