sábado, 24 de dezembro de 2011

Sobre Lecionar

Lá se foram dois meses sem digitar nada por aqui. O tempo está voando em velocidades supersônicas. Agora que acabou-se meu primeiro semestre como professor, resolvi escrever algumas linhas sobre a experiência. A charge é de Sidney Harris.

Dá trabalho. Preparar as aulas buscando que sejam tão interessantes quanto possível dá trabalho. Se preparar para as possíveis perguntas que podem surgir - sabendo que, de qualquer forma, vão surgir perguntas para as quais não se está preparado - dá trabalho. Avaliar trabalhos dá trabalho. Avaliar trabalhos semanais como eu fiz em pelo menos uma das minhas disciplinas - e pretendo fazer em mais uma ou duas no próximo semestre - dá muito trabalho.

É frustrante. É frustrante ver que alguns alunos não conseguem ou - mais provavelmente - não querem acompanhar ou aprender o que estamos mostrando. É frustrante constatar que para cerca de cinquenta por cento dos alunos, passar com média 5 no exame está ótimo e dá a sensação de missão cumprida. Ainda não sabem que a nota e o diploma são secundários. Que na vida vão precisar do que aprenderam, e não apenas do diploma. Frustrante se prestar a corrigir trabalhos semanais de alunos que entregam descaradamente cópias dos programas uns dos outros.

Mas é sobretudo gratificante. É gratificante se aprofundar em conteúdos muito mais do que o fazemos como alunos. É gratificante dar aulas. Gratificante ver alunos - ainda que não todos, ainda que a minoria - interessados no que estamos mostrando. Sentir que alguém está aprendendo alguma coisa e que somos diretamente responsáveis por esse aprendizado é gratificante. Gratificante aprender com os alunos. Gratificante ouvir perguntas ou ideias que não tínhamos pensado antes da aula. É gratificante acompanhar a melhora nos tais trabalhos semanais ao longo do semestre por parte de alguns alunos. Ou a constância dos que já são bons desde o início. Gratificante ver a qualidade dos bons trabalhos finais das disciplinas, um pouco mais elaborados que os semanais. Gratificante de vez em quando receber algum reconhecimento por parte dos colegas que trabalharam um pouco mais de perto comigo e de alguns alunos também.

Sobretudo gratificante. Estou profissionalmente satisfeito.

E que venha o próximo semestre.

sábado, 29 de outubro de 2011

Livro da Vez: Casa Grande & Senzala - Gilberto Freyre

Sensacional. Uma sensacional aula de história. Uma verdadeira aula de Brasil. É o tipo de livro que se lê com prazer. O livro que "acrescenta" alguma coisa. E nesse caso é alguma coisa que está dentro de nós mesmos, no inconsciente, na cultura e na história de cada um de nós, brasileiros.

De se ressaltar no livro que ele está falando das pessoas, dos cidadãos, dos índios, dos portugueses e dos escravos negros. Não é um livro sobre os personagens históricos, suas leis, guerras e políticas. Esses são citados apenas de passagem, se tanto. O personagem principal do livro - como também o é da história do Brasil e do mundo - é o cidadão comum. Uma narrativa que se desenvolve em torno dos senhores de engenho, das suas esposas, dos índios, dos negros, dos jesuítas e dos filhos de todos esses. Enfim, em torno do povo brasileiro. Do cotidiano dos tempos coloniais. Às vezes chegando até ao tempo em que foi escrito, no início dos anos 1930.

Trata-se de uma obra extremamente bem documentada. Pesquisa profunda e cuidadosa, citando inúmeras referências. Na edição que eu li, constavam mais de sessenta páginas de bibliografia. Inclusive muitos documentos históricos e jornais do período colonial e do império. Um trabalho muito bem feito. Muito bem feito e muito bem escrito. Um estilo agradável, contundente e que vai além do livro de história para ser também uma obra de literatura, como arte.

Claro que o livro não é cientificamente atualizado ou correto o tempo todo. Há, a meu ver, algum exagero quando ele fala em algumas características genéticas que os povos (e em algum caso, mesmo famílias) possuiriam e que determinariam certas características dessas famílias e povos. Ele também fala em "eugenia" e superioridade de uma "raça" sobre a outra de uma forma que não se fala mais hoje em dia. Quando fala da influência do povo judeu sobre o povo português, por exemplo, chega a beirar o anti-semitismo. Justamente pouco antes da segunda guerra. Mas há que se inserir o autor no contexto do seu tempo, e no princípio dos anos 30, creio eu, a ciência apontava realmente para essas diferenças mais profundas, as quais hoje a ciência nos mostra que não são tão profundas assim, chegando a ser questionado o próprio conceito de "raças" humanas.

Mas o livro transcende essas questões, e faz com que todos os brasileiros se identifiquem com suas origens. Faz com que percebamos de onde viemos e que temos traços do índio, do português e do negro. Uma miscigenação bem sucedida que, pra mim, é um dos maiores motivos de orgulho de ser brasileiro. O fato de que conseguimos conviver em paz e, relativamente unidos como um povo só, independente da diversidade das nossas origens étnicas, culturais ou religiosas tão diversas, enquanto a maioria do resto do mundo ainda se comporta de forma um pouco (ou muito, dependendo do lugar) diferente.

O livro transcende as críticas. Transcende a sociologia e a antropologia. É literatura. E é sobre nós. Sobre o nosso passado. Sobre a nossa infância às vezes. Embora não fale no Rio Grande do Sul, que no período colonial talvez tivesse mais semelhanças com a América espanhola que com o Brasil, é possível, e pra mim inevitável, se identificar com o que ele diz. Mesmo o gaúcho que nunca tenha ido a Bahia, se identifica com o tabuleiro da baiana. Nem que seja através da música do Caetano ou de um gibi do Zé Carioca.

Em resumo, um livro que, ao descrever rituais de danças indígenas, consegue fazer uma ponte para que eu - que nunca sequer vi um índio de perto - consiga identificar nesses rituais lembranças da minha própria infância é um livro especial pra mim. Trata-se de um livro que todo brasileiro deveria ler.


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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Por que Ramones?

Bastante gente sabe que minha banda preferida (em empate técnico com os Beatles, mas Beatles é hors concours) são os Ramones. Hoje me deu vontade de escrever o porquê disso.

Vejamos o que era a tendência do rock no início dos anos 70, pouco antes do Ramones (pelo menos a tendência do rock "mainstream"): Led Zepelin com solos de guitarra de meia-hora. Bandas progressivas como Pink Floyd com sua música extremamente elaborada, com alta qualidade técnica e raios laser. Psicodelia total de caras como David Bowie e a última fase dos Beatles. Prodígios da guitarra como o Jimi Hendrix e bandas mais próximas do metal ou hard rock como o Black Sabbath e o Deep Purple.

Todas bandas tecnicamente sensacionais. Não se pode questionar a arte desses caras (embora se possa gostar ou não gostar). Mas todas elas meio que se afastavam do rock básico, original, simples, trivial mas verdadeiramente rock. Baixo bateria e guitarra. 1-2-3-4! Músicas rápidas, mensagens poderosas. Uma rebeldia que talvez a "nerdice" musical do Pink Floyd ou do Led não representasse mais, pelo menos não com a mesma energia (na minha visão).

Aí, nesse cenário o Ramones aparece, chuta o balde e traz de volta o rock simples, mas que sendo simples tinha dominado o mundo nos anos 60. E trazem o rock simples ainda mais rápido e potente do que era antes. Com letras escrachadas. Traz a diversão e a alegria de volta. Traz o punk rock! E a partir daí surgem milhares de bandas pelo mundo todo, do Sex Pistols ao Green Day, e, ao menos pela atitude, se não tanto pelo som, até o grunge do Nirvana. Não dá pra desqualificar os caras por não terem a técnica de guitarra do Hendrix ou do Jimmy Page. A ideia não era essa.

Não estou desmerecendo as bandas que citei acima, só estou colocando o contraste do Ramones com todas elas e colocando a ideia de que o Ramones era necessário naquele momento pra trazer o rock de volta (e hoje também, seria necessário que surgisse uma banda assim. Quem nos dera...), mostrando que eles representaram algo realmente dissonante com a realidade da época, com alta criatividade e originalidade. Isso pra mim é arte pura.

Fazendo uma analogia com guerras, já que o rock tem muitas vezes algo de violento, o metal soa como um tanque de guerra: Sólido, lento e pesado. O punk como uma metralhadora: Rápido, ágil e mortal. Ambos tem seu lugar e sua aplicação na guerra. Eu prefiro as metralhadoras. Mas respeito e de vez em quando até ouço os tanques.

"We need change, we need it fast
Before rock's just part of the past
'Cause lately it all sounds the same to me
Oh oh oh oh, oh oh"


Ramones

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

E as Crianças, Hein?

No último feriado da revolução farroupilha, estava eu almoçando - às 4 da tarde, horário em que se deve almoçar nos feriados - no KFC, uma das poucas redes de fast food que eu gosto quando o comportamento de um guri me chamou a atenção. O guri estava acompanhado por duas jovens senhoras. Tudo tranquilo até que o guri, do nada começou a "intimar" as mulheres:

- Ei! Como foi que vocês compraram esse lanche?! Hein?! Me diz! Foi com dinheiro não foi?!

E continuava...

- Como vocês disseram que não tinham dinheiro pra comprar o <nome de brinquedo ou goluseima ininteligível> pra mim? Vocês estão pensando o que?! Qual é a de vocês? Querem me enganar, po! Eu não sou otário não!

Dizia isso aos gritos, batia na mesa enfurecido, em uma falta de respeito absurda com a mãe, tia ou o que quer que fossem aquelas senhoras. Só faltou ele puxar uma cinta e bater nas mulheres. Inversão de papéis total. Típico exemplo do mundo moderno de situações em que "os postes estão mijando nos cachorros". E as senhoras caladas, atônitas e sem reação. Só ouvindo o discurso enfurecido do guri e comendo seu frango frito.

Nessas horas eu me pergunto onde vamos parar. Quando vemos crianças dando tiro em professor, desrespeitando tudo e todos é um tanto preocupante. Não entendo o que acontece. Ou sempre foi assim e só agora estou vendo isso ou a coisa está realmente indo de mal a pior. Falta energia aos pais para educar. Falta tempo quando ambos trabalham. Falta fibra. Falta conversar com a criança. Ensinar os limites. Acho que definitivamente a televisão está falhando em educar nossas crianças. A televisão atinge bem seu objetivo que é vender brinquedos, mas para educar não serve. Precisamos passar mais tempo e tempo com maior qualidade com nossos filhos. O Brasil definitivamente precisa de uma revolução na educação. Tanto na educação formal quanto na educação em casa.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Roleta


"A roleta - inventada, ao menos segundo a lenda, por Blaise Pascal ao brincar com a ideia de uma máquina de movimento perpétuo - é basicamente uma grande tigela com partições (chamadas calhas) com a forma de finas fatias de torta. Quando é girada, uma bolinha de gude inicialmente gira pela borda, mas acaba por cair em um dos compartimentos, numerados de 1 a 36 além do 0 (e do 00, em roletas americanas). O trabalho do apostador é simples: adivinhar em qual compartimento cairá a bolinha. A existência de roletas é uma demonstração bastante boa de que não existem médiums legítimos, pois em Monte Carlo, se apostarmos US$1 em um compartimento e a bolinha cair ali, a casa nos pagará US$35. Se os médiums realmente existissem, nós os veríamos em lugares assim, rindo, dançando e descendo a rua com carrinhos de mão cheios de dinheiro, e não na internet, com nomes do tipo Zelda Que Tudo Sabe e Tudo Vê, oferecendo conselhos amorosos 24 horas por dia, competindo com outros 1,2 milhões de médiums na internet (segundo o Google)."

Leonard Mlodinow
em "O Andar do Bêbado"

terça-feira, 14 de junho de 2011

Privilégios

Em 29 de novembro de 1807 embarcava em Lisboa d. João, príncipe regente de Portugal, juntamente com sua mãe d. Maria, a "rainha louca" e com diversos familiares e amigos. Embarcavam para o Brasil, fugindo das tropas de Napoleão que então conquistava praticamente toda a Europa. D. João trazia consigo o tesouro real. Que consistia de aproximadamente a metade do dinheiro em circulação em Portugal na época, sem falar em outros inúmeros valores como obras de arte e extravagâncias em geral. Privilégios da realeza. Mas o leitor mais crítico pode perguntar que realeza é essa? Quem é essa família? Quem são essas pessoas que merecem concentrar mais da metade da riqueza de toda a nação? Obviamente alguns anos mais tarde d. João levaria de volta para Portugal consigo aquelas toneladas de dinheiro. Uma ganância caricata. Pra mim chega a ser patético um ser humano andar pra lá e pra cá com uma esquadra de navios cheios de dinheiro. Um robin hood ideal na época poderia duplicar o patrimonio de toda a população do país se tirasse o patrimonio de apenas uma família, a família Real. Essa família foi das mais influentes na independência e na história do Brasil. O filho de d. João viria a declarar a independência e a ser o primeiro imperador do Brasil.

A questão que quero colocar é se hoje a situação é muito diferente daquela época em que o povo tinha muito pouca informação e acreditava que os monarcas eram escolhidos de Deus para lhes comandar e explorar. Hoje vemos políticos ganhando salários vinte, trinta vezes maiores que os de bombeiros, policiais, professores e a média da população em geral. Isso se formos contar só os salários oficiais dos nobres políticos. Além desses salários, mais do que suficientes para qualquer pessoa ter uma vida muito digna para si e para sua família, parlamentares e políticos em geral contam com auxílio moradia, auxílio alimentação, auxílio saúde, verbas de gabinete, um exército de assessores, e por aí vai. Será que parlamentares com salários de R$ 26.700 precisam de algum "auxílio"? Não conseguem se virar com seus salários? Além dos salários, auxílios e benefícios, é comum ter senador recebendo aposentadoria por ter sido governador, por exemplo. Um absurdo. Por esse raciocínio, o leitor que trabalhou quatro anos como pedreiro, e agora é marceneiro também deveria ter direito a aposentadoria de pedreiro, além do salário de marceneiro. Sem falar que a aposentadoria deles sem dúvida é das maiores que existem. Afinal os políticos são os que mais necessitam de ajuda, coitados.

Não satisfeitos com os salários que chegam a ser uma ofensa ao cidadão comum que trabalha muito mais e ganha muito menos, não satisfeitos com todos os auxílios e privilégios em cima desses salários e aposentadorias, nossos políticos ainda precisam ser desonestos. Precisam ser desonestos para incrementar suas parcas rendas, pobrezinhos. E por isso vemos diariamente escândalos de corrupção, um após o outro. Testemunhamos governos pagando mesadas a deputados. Assistimos o dinheiro público ser despejado em obras superfaturadas, em licitações fraudulentas, em elefantes brancos inúteis, em cabides de empregos e em cuecas e meias de corruptos em geral.

Vemos o Sarney ocupando cargos influentes em todos os governos desde o início da ditadura militar até hoje. Um exemplo de flexibilidade a dele, de conseguir apoiar tantos governos de ideologias tão diferentes, simplesmente pelo prazer do poder. Vemos o Maluf com a vergonhosa fama de "rouba mais faz" defendida por seus próprios eleitores se reeleger ano após ano. Vemos o Palocci ficar milhonário da noite pro dia prestando consultoria para mega-empresas sobre como será a política econômica do governo do seu partido. Vemos gente roubando dinheiro de ambulância e de merenda escolar.

E não é uma questão ideológica ou partidária. Tem mensalão do PT e mensalão do DEM e mensalão de qualquer partido que tenha poder em algum lugar. Temos cargos de confiança inúteis no país, no estado e no município. É uma questão humana. Uma questão da ganância e do egoísmo humanos. É alarmante. É estarrecedor. É triste. É desumano. É uma violência contra o cidadão. E é endemica, é ubíqua na política brasileira.

Como se não bastassem os políticos determinarem seus próprios salários e privilégios, eles também "fiscalizam" e "julgam" seus próprios crimes através de CPI's que nunca dão em nada. Pelo menos eu não me lembro de uma única CPI que tenha contribuído com alguma coisa além de pizza. É uma constante troca de pizzas o que fazem as CPI's nas casas legislativas desse país. E quando alguma coisa vai parar no judiciário, as denúncias nunca são boas o bastante para condenar um político sequer. O juiz culpa o MP, o MP culpa a polícia, a polícia culpa o executivo, o executivo culpa a imprensa e ninguém assume nada. É mais fácil cobrar a conta de quem nunca reclama, o contribuinte que vai lá religiosamente pagar o salário de todos eles.

Se diz a constituição que "todo o poder emana do povo", justo seria que houvessem plebiscitos para decidir sobre aumentos de salários de políticos. Para decidir sobre concessão de novos privilégios à classe política. Justo seria se crimes de corrupção fossem julgados por júri popular, e não pelos próprios políticos. Justo seria se políticos tivessem um salário digno em vez de um salário abusivo. Justo seria se "auxílios" fossem dados a quem realmente necessita. Justo seria se o absurdo que é pago de impostos nesse país, retornasse ao povo da forma que deveria. É complicado, meus amigos...

domingo, 10 de abril de 2011

Além do Bem e do Mal


Nietzche diz assim na sua obra entitulada "Além do Bem e do Mal":

‎"A 'exploração' não é própria de uma sociedade corrompida ou imperfeita e primitiva: ela é própria da essência daquilo que é vivo como função orgânica fundamental, ela é uma consequência da autêntica vontade de poder, que é precisamente a vontade de vida. - Supondo que, como teoria, isso seja uma inovação - como realidade, é o fato primordial de toda a história: seja-se honesto consigo mesmo até esse ponto!"

Há de se convir que os políticos, por exemplo, são seres extremamente "vivos" para Nietzsche. É um interessante debate a questão de concordar com ele sobre o que é ou não é "corrompido" ou "imperfeito". Mas não há como deixar de concordar com ele que isto que ele diz é, definitivamente, a realidade.

Imagem daqui.