terça-feira, 14 de junho de 2011

Privilégios

Em 29 de novembro de 1807 embarcava em Lisboa d. João, príncipe regente de Portugal, juntamente com sua mãe d. Maria, a "rainha louca" e com diversos familiares e amigos. Embarcavam para o Brasil, fugindo das tropas de Napoleão que então conquistava praticamente toda a Europa. D. João trazia consigo o tesouro real. Que consistia de aproximadamente a metade do dinheiro em circulação em Portugal na época, sem falar em outros inúmeros valores como obras de arte e extravagâncias em geral. Privilégios da realeza. Mas o leitor mais crítico pode perguntar que realeza é essa? Quem é essa família? Quem são essas pessoas que merecem concentrar mais da metade da riqueza de toda a nação? Obviamente alguns anos mais tarde d. João levaria de volta para Portugal consigo aquelas toneladas de dinheiro. Uma ganância caricata. Pra mim chega a ser patético um ser humano andar pra lá e pra cá com uma esquadra de navios cheios de dinheiro. Um robin hood ideal na época poderia duplicar o patrimonio de toda a população do país se tirasse o patrimonio de apenas uma família, a família Real. Essa família foi das mais influentes na independência e na história do Brasil. O filho de d. João viria a declarar a independência e a ser o primeiro imperador do Brasil.

A questão que quero colocar é se hoje a situação é muito diferente daquela época em que o povo tinha muito pouca informação e acreditava que os monarcas eram escolhidos de Deus para lhes comandar e explorar. Hoje vemos políticos ganhando salários vinte, trinta vezes maiores que os de bombeiros, policiais, professores e a média da população em geral. Isso se formos contar só os salários oficiais dos nobres políticos. Além desses salários, mais do que suficientes para qualquer pessoa ter uma vida muito digna para si e para sua família, parlamentares e políticos em geral contam com auxílio moradia, auxílio alimentação, auxílio saúde, verbas de gabinete, um exército de assessores, e por aí vai. Será que parlamentares com salários de R$ 26.700 precisam de algum "auxílio"? Não conseguem se virar com seus salários? Além dos salários, auxílios e benefícios, é comum ter senador recebendo aposentadoria por ter sido governador, por exemplo. Um absurdo. Por esse raciocínio, o leitor que trabalhou quatro anos como pedreiro, e agora é marceneiro também deveria ter direito a aposentadoria de pedreiro, além do salário de marceneiro. Sem falar que a aposentadoria deles sem dúvida é das maiores que existem. Afinal os políticos são os que mais necessitam de ajuda, coitados.

Não satisfeitos com os salários que chegam a ser uma ofensa ao cidadão comum que trabalha muito mais e ganha muito menos, não satisfeitos com todos os auxílios e privilégios em cima desses salários e aposentadorias, nossos políticos ainda precisam ser desonestos. Precisam ser desonestos para incrementar suas parcas rendas, pobrezinhos. E por isso vemos diariamente escândalos de corrupção, um após o outro. Testemunhamos governos pagando mesadas a deputados. Assistimos o dinheiro público ser despejado em obras superfaturadas, em licitações fraudulentas, em elefantes brancos inúteis, em cabides de empregos e em cuecas e meias de corruptos em geral.

Vemos o Sarney ocupando cargos influentes em todos os governos desde o início da ditadura militar até hoje. Um exemplo de flexibilidade a dele, de conseguir apoiar tantos governos de ideologias tão diferentes, simplesmente pelo prazer do poder. Vemos o Maluf com a vergonhosa fama de "rouba mais faz" defendida por seus próprios eleitores se reeleger ano após ano. Vemos o Palocci ficar milhonário da noite pro dia prestando consultoria para mega-empresas sobre como será a política econômica do governo do seu partido. Vemos gente roubando dinheiro de ambulância e de merenda escolar.

E não é uma questão ideológica ou partidária. Tem mensalão do PT e mensalão do DEM e mensalão de qualquer partido que tenha poder em algum lugar. Temos cargos de confiança inúteis no país, no estado e no município. É uma questão humana. Uma questão da ganância e do egoísmo humanos. É alarmante. É estarrecedor. É triste. É desumano. É uma violência contra o cidadão. E é endemica, é ubíqua na política brasileira.

Como se não bastassem os políticos determinarem seus próprios salários e privilégios, eles também "fiscalizam" e "julgam" seus próprios crimes através de CPI's que nunca dão em nada. Pelo menos eu não me lembro de uma única CPI que tenha contribuído com alguma coisa além de pizza. É uma constante troca de pizzas o que fazem as CPI's nas casas legislativas desse país. E quando alguma coisa vai parar no judiciário, as denúncias nunca são boas o bastante para condenar um político sequer. O juiz culpa o MP, o MP culpa a polícia, a polícia culpa o executivo, o executivo culpa a imprensa e ninguém assume nada. É mais fácil cobrar a conta de quem nunca reclama, o contribuinte que vai lá religiosamente pagar o salário de todos eles.

Se diz a constituição que "todo o poder emana do povo", justo seria que houvessem plebiscitos para decidir sobre aumentos de salários de políticos. Para decidir sobre concessão de novos privilégios à classe política. Justo seria se crimes de corrupção fossem julgados por júri popular, e não pelos próprios políticos. Justo seria se políticos tivessem um salário digno em vez de um salário abusivo. Justo seria se "auxílios" fossem dados a quem realmente necessita. Justo seria se o absurdo que é pago de impostos nesse país, retornasse ao povo da forma que deveria. É complicado, meus amigos...

3 comentários:

Carina disse...

Imagino se eles não tivessem salário algum. Teriam seus próprios empregos fora da política e seriam voluntários com dedicação de tempo parcial. Queria ver quem se candidataria.

Vítor Souza disse...

Leo, você diz que é "ubíqua na política brasileira", mas eu vou além e digo: "ubíqua na SOCIEDADE brasileira".

Até hoje não conheci ninguém que não viole, propositalmente, uma leizinha aqui e outra ali. Seja uma "acoxambrada" no trânsito, uma colinha na universidade, uma enganadinha no trabalho, uma ignoradinha numa regra do condomínio, uma sonegadinha no imposto...

E sempre que eu uso esse argumento, alguém joga a culpa de volta no governo: "ah, mas eu só faço isso porque eles roubam"! É um ciclo vicioso, porque não existe "eles". Os políticos são membros da sociedade e vivem permeados nessa cultura. Uma cultura de desrespeito às leis, de ser mais esperto que os outros.

Pra mim, é preciso uma mudança na BASE de tudo, que é a sociedade.

Leonardo disse...

Concordo Vitor. Seja o assunto que for, a solução sempre recai na educação. É a única forma de mudar a base de tudo.

Tinha um professor meu na Unicamp que dizia que o ser humano sempre rouba tudo que puder roubar. "Vocês roubam nota (colam) porque é só o que vocês podem roubar por enquanto." Eu acho que faz sentido sim. Não digo nem que seja o Brasileiro. O ser humano vai sempre querer levar vantagem, quando puder sair impune disso. O problema no caso específico dos políticos é que pra eles é muito fácil roubar muita coisa de muita gente. E só quem pode mudar isso são eles mesmos. É muito poder na mão de simples pessoas. O difícil é vislumbrar um sistema que fosse mais justo. Talvez o da Suécia ;-).